Quando o Programa de besteirol, O Pânico, tem que dar uma lição de racionalidade

Que momento mais maluco esse que a gente vive. O “Pânico” é um programa de besteirol politicamente incorreto. Um programa de bobagem e banalidade, onde seus apresentadores perseguem celebridades. Em uma conjuntura de extremismo conservador e desinformação massiva on-line e na grande mídia.

O blog recomenda esse vídeo, onde o apresentador Emilio Surita dá uma enquadrada na reacionária televisiva Rachel Sheherazade. Pela primeira vez o Pânico serviu para algo.

Fórum Audiovisual do Rio de Janeiro – encontro do dia 28/03/2015 – pauta nacional

Frederico Neto:

LEIAM! Importante para todos que trabalham com cinema!

Publicado originalmente em ABD/RJ - Audiovisual Independente:

3º Encontro do Fórum Audiovisual – Rio de Janeiro, ocorrido dia 28 de março de 2015, 14h00, na Escola de Cinema Darcy Ribeiro: Rua da Alfândega, 05 – Rio de Janeiro – RJ, cuja a pauta foi estadual

Presentes: sem possibilidade de contabilidade, mas por volta de 100 pessoas.

Dando sequência aos trabalhos do Fórum Audiovisual Permanente, o presente dia foi produtivo e com maior participação presencial que os anteriores, o que nos dá ânimo para os próximos passos.

Ainda, com agenda mensal garantida na RioFilme, agenda com o Secretário Municipal de Cultura do Rio de Janeiro e com a Superintendência Secretaria de Estado da Cultura do Rio de Janeiro, contamos com a presença do diretor da ANCINE – Agência Nacional de Cinema, Roberto Lima, e com o Secretário do Audiovisual do Ministério da Cultura, Pola Ribeiro, para a apresentação das pautas nacionais e início dos debates sobre elas.

O…

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Clara Mallo – Cultura hipster, individualismo e nova dominação cultural capitalista

Poderíamos dizer que em poucos anos uma “nova cultura” colonizou as cidades de todo o mundo, a publicidade, as redes musicais de rádio, as revistas culturais e as mostras de arte.

Uma “nova cultura” que quase todos indentificamos mas que parece difícil de definir, saber de onde vem, em que se baseia e o que a caracteriza para além da estética que a define. Conhecida como hipster, se trata de uma tendência que ultrapassa a estética e a moda para invadir toda expressão cultura. O cinema, a música a programação de centros de arte parecem estar pensados de acordo com o hipster.

Mas esse conceito não é nada novo; o termo hipster vem de uma das contraculturas urbanas surgidas nos Estados Unidos na década de 1950 e, ainda que não tenha tido o mesmo desenvolvimento que a cultura rock, o beatnik ou o fenômeno hippie, se definia como uma subcultura branca, cujo ímpeto passava por se libertar dos estereótipos brancos, mas mantendo suas aspirações burguesas.

Esta (sub)cultura teve mais sorte nos últimos anos, que favoreceu seu desenvolvimento e expansão, em parte graças às novas tecnologias e meios de comunicação. Mas o que há por trás disso tudo? Sem dúvida se trata de um fenômeno social e cultural muito mais amplo que expressa características de uma sociedade capitalista avançada, como o individualismo, o consumismo e a despolitização.

Aspectos que foram tão hegemônicos nas últimas décadas. Características que, no entanto, nos últimos anos, em decorrência da crise capitalista e das mobilizações sociais, começaram a ser questionadas pela esquerda, com movimentos como Occupy Wall Street, os indignados espanhóis, a praça Syntagma e muitos outros. Bem como pela emergência incipiente de projetos culturais contestatórios, desde os mais abertamente militantes àqueles que, sem o ser, problematizam sobre a sociedade em que vivemos.

Cultura globalizadora baseada nos mercados, imperialismo cultural

Uma primeira definição deste fenômeno é precisamente que é “filho de seu tempo”, um fenômeno global, surgido em um mundo globalizado e em parte homogeneizado pelos mercados, um tempo marcado pela hegemonia do neoliberalismo. Esta talvez seja uma das primeiras questões que o diferencia de fenômenos culturais anteriores, como o punk ou o indie, que, ainda que tenham gozado de grande expansão – pelo menos nos principais centros urbanos – não chegaram a ter o mesmo nível de difusão massiva que as tendências hipster, as quais, hoje, graças às novas tecnologias e meios de comunicação de massas, as grandes máquinas de marketing maciço, se converteram em um fenômeno globalizado.

Na década de 1960 surge como novidade nos estados de capitalismo mais avançado que alguns tenham identificado uma nova cultura juvenil com identidade própria, algo que se desenvolverá nas décadas seguintes. A particularidade desta “cultura juvenil” foi que “se converteu em dominante nas economias desenvolvidas de mercado”. Poderíamos dizer que em poucos anos uma “nova cultura” colonizou as cidades de todo o mundo, a publicidade, as estações de música nos rádios, as revistas culturais e as mostras de arte.

Como define Hobsbawn em sua “História do século XX”, se tratou de uma massa juvenil que assumia e consumia os produtos do mercado de uma maneira muito mais rápida que as gerações anteriores.

Precisamente essa disposição para o consumo, favorecida pelas condições sociais e econômicas dos anos de desenvolvimento econômico do boom do pós-guerra, foi vista como uma “mina de ouro” pelas ainda incipientes indústrias do ócio e culturais, como a musical, a de moda, e posteriormente a tecnológica. Neste sentido foram elementos da cultura dominante norteamericana e seus valores os que foram generalizados entre os jovens dos Estados com as economias de mercado capitalista mais desenvolvidas. A dominação cultural, nesse caso estadounidense, não foi uma novidade, ainda que tenha sido o seu modo de se implantar. Deixando para trás o cinema como meio de difusão, agora era o rock, com suas letras sem tradução, e o uso de calças jeans o que começou a se generalizar entre jovens de todo o mundo.

Esta nova cultura juvenil se converteu na matriz da chamada “revolução cultural”, entendendo revolução em um sentido muito estreito, como grandes transformações no comportamento e nos costumes, no modo de dispor do tempo livre e no modo de consumir, que passaram a configurar cada vez mais os ambientes urbanos. Em referência a este fenômeno, Hobsbawn define: “Duas de suas características são importantes: era populista e iconoclasta, sobretudo no terreno do comportamento individual no qual todo o mundo deveria ser único, ainda que na prática, a pressão dos congêneres e a moda impuseram a mesma uniformidade que antes.”

Mas esses anos não foram unicamente de “revolução cultural” no sentido estreito que aponta Hobsbawn. No fim dos anos 1960 e 1970, a onde de manifestações, greves e radicalização juvenil que marcavam, sem dúvida, o clima político, social e cultural. Um clima de radicalização social que desafiou a moral conservadora no plano sexual, cultural e político. A esta situação de insubordinação geral contra a ordem estabelecida seguiram-se grandes debates sobre as mudanças culturais ou o que alguns definiram como “revolução cultural”, ajudando a desvirtuar extremamente este termo.

O certo é que se usar jeans e deixar o cabelo crescer nos anos 1960 pudesse parecer como contracultural, e de certa forma o foi e correspondia a uma reação à geração anterior, ao mesmo tempo se tratou de uma contracultura que com os anos foi cada vez mais dominada pelos mercados, principalmente o mercado norteamericano.

Ainda que tenha sido nos anos sessenta que começou a surgir este fenômeno (momento de radicalização e questionamento), será durante a década de noventa, um década marcada pelo triunfalismo neoliberal, que se desenvolve plenamente essa “cultura juvenil” como mercado. O surgimento do jovem como “agente social” consciente recebeu um reconhecimento cada vez maior por parte das indústrias culturais e dedicadas ao ócio. Os benefícios de focar o mercado nas gerações mais jovens foi algo que as companhias dedicas a este tipo de produto aprenderam.
A indústria musical, televisiva, tecnológica, cosmética e a moda viveram um enérgico desenvolvimento nos anos noventa. Para se dirigir a esse público, potencializaram um marketing indie, diferenciador, que prontamente passou a dominar e privatizar todo os aspectos e espaços de nossa vida. Nesse cenário, com todos os espaços de ócio, criação e difusão dominados pelo mercado, parecia que nenhuma manifestação cultural de nenhum tipo poderia ser independente, porque tudo era assumido pelo mercado.

Ofensiva individual

A expansão do consumismo como questão central na cultural atual não teria sido possível unicamente pelo avanço do capitalismo e suas indústrias culturais. Existe um componente social que ajudou a que essa cultura do consumo com verniz independente se generalizasse entre setores populares, apesar das contradições que isto pressupõe.

Atualmente é justamente esse setor jovem que são enfocados pelos mercados culturais e do entretenimento, o que sofre a maior precariedade trabalhista em sua história. Mas em grande parte destes setores juvenis se implantou uma cultura centrada no consumo e no individual, questões apoiadas na “ideia de independência”, confundindo a independência com o individual, o “ser você mesmo” e aspirar a crescer mediante o enriquecimento pessoal. Precisamente esse individualismo é a chave que sustenta essa falsa contracultura indie.

O brutal individualismo que colonizou aspectos da cultura (entendida em um sentido amplo como comportamentos sociais e costumes) dos últimos tempos tem uma origem muito clara: a ofensiva ideológica, política e material que nas últimas décadas se lançou a partir dos setores dominantes com o objetivo de destruir toda consciência e expressões culturais operárias e coletivas.

Sobre a crise de subjetividade que hoje atravessa a classe operária mundial, daria para abrir outro debate. Mas o certo é que existe um elemento ideológico que é fundamental e está relacionado a que a classe operária perdeu sua confiança em seu poder coletivo, seu sentimento de pertencimento a um grupo social com identidade própria e com expressões políticas e culturais próprias.

E é precisamente a classe dominante que se encarregou durante as últimas décadas de destruir todas as expressões que podiam aludir ao proletário, ao coletivo ou ao radical, apoiando-se no desenvolvimento do “individual”, que anula todo sentimento de pertencimento de classe, ou a qualquer grupo ou coletivo.

Não causa espanto que a expansão dessa cultura tenha ocorrido tão rapidamente. O campo. Isso teve a ver com a ofensiva neoliberal por parte dos governos que ocorreu nos anos 1980 e 1990 do século passado. Exemplo disto e uma das ofensivas mais brutais foi aquela levada a cabo na Grã Bretanha pelos conservadores encabeçados por Margaret Thatcher. Como define Owen Jones em sua análise da cultura operária britânica Chavs, a demonização da classe operária, “os conservadores fizeram o experimento mais audaz de engenharia social.” Nas palavras da própria Thatcher ao ganhar as eleições em 1979: “Temos que criar uma mentalidade completamente nova.”

Difundir a ideia de que as pessoas pudessem melhorar de vida mediante o enriquecimento pessoal e não por meio da ação coletiva era o que pretendia Thatcher, uma reafirmação dos “princípios” do capitalismo mais voraz. Uma brutal ofensiva contra os interesses da classe trabalhadora e contra todas suas expressões coeltivas, que não apenas se deu na Grã Bretanha que assentou as bases do individualismo atual.

O objetivo era acabar com a classe trabalhadora como força política, social e econômica, substituindo-a por um conjunto de indivíduos e empreendedores. O certo é que o desenvolvimento dessa ideia ainda se expressa hoje. A nova cultura individualista, da classe média, o individualismo, o “apoliticismo” e a anglofilia sem questionamento. Uma estética dominante no capitalismo. Mas que, ao calor dos novos fenômenos sociais e políticos, da frustração e da indignação que gerou a crise capitalista, pode começar a ser questionada.

Como e onde se apoiou esta ofensiva, para que fosse possível mudar o modo de pensar de grande parte da sociedade e dos trabalhadores britânicos? Sem dúvida o duplo ataque aos sindicatos e à indústria manufatureira não teria sido possível, o qual entre outras coisas permitiu impor condições sociais e econômicas de retrocesso social, que favoreceram uma visão extremamente negativa da classe operária e de todo aquele que a representasse, fosse politicamente, como nos sindicatos ou socialmente como os aspectos culturais que a caracterizaram.

O modo de se vestir dos trabalhadores, sua casas, os modos de se relacionar, a música que escutavam, se converteram em deprezíveis. A ideia de uma subclasse se gerou nesse momento, algo do qual se queria fugir desesperadamente e do qual se diferenciar através do enriquecimento pessoal. Owen Jones explica como se desenvolve essa ideia de subclasse em Chavs, um conceito caricaturizado que ajuda a desenvolver os preconceitos contra tudo o que expressa uma origem proletária e popular. Conceito relacionado com aquelas comunidades ou coletivos mais afetados pela crise, que sofrem graves problemas sociais, os quais são descritos como representativos de setores mais amplos. Um perigo no qual pode cair “se não trabalhar duro”.

Esta ideia de subclasse aparece quando, após o ataque thatcherista, muitas cidades e inclusive regiões ou estados inteiros se converteram em rustbels (cinturões de ferrugem), museus fantasmas da manufatura. Comunidades que centravam sua vida no sentimento de pertencimento a uma comunidade como mineiros, estaleiros, trabalhadores têxteis, viram como em pouco tempo se convertiam em “indivíduos” isolados, cujas condições de vida pauperizadas se deviam, como lhes convenceram, a seu “escasso esforço” pessoal para chegar a ser “alguém de proveito”.

Todas aquelas comunidades afundadas pelo interrompimento crônico foram utilizadas como modelo do que não se deve ser nesta sociedade. Toda uma campanha de marketing por parte do liberalismo. Uma visão potenciada em favor do desenvolvimento individualista, lançando a mensagem de que há dois tipos de pessoas nessa sociedade: os que querem viver ao custo do que o estado proporciona, e a “gente de proveito”, que com seu esforço pessoal consegue “ser algo”.

Esta ideia cruel foi acompanhada pela introdução de certos valores culturais que reforçaram e abriram as portas para o maior desenvolvimento dos aspectos individualistas na cultura atual. Conceitos como a liberdade individual, criatividade, empreendimento, diferença etc. Todos estes são valores que remetem ao individual, aos méritos próprios, e não fazem referência ao coletivo. São os valores da nova cultura esnobe, hoje hipster, e os que precisamente a colocam em uma posição de harmonia com o capitalismo.

Nenhum desses valores questionam nada do estabelecido, simplesmente asseguram a posição individual frente ao restante. O avanço pessoal rege nossos comportamentos sociais e determina nossas relações, o que converte o individualismo e uma de suas expressões estéticas e culturais mais avançadas, o hipster, como conservadores.

Agora, querer disfarçar uma tendência reacionária como algo progressivo, resistente, underground, é algo em que se empenha muito a indústria.

A cultura como desmobilizador político

A esta altura cremos ter a capacidade de afirmar que é chave a definição de hipster como uma falsa subcultura. Precisamente o que diferencia o mundo hipster de outros movimentos underground ou de contracultura, como foram o beat, o punk ou o indie, é a ruptura social, ou melhor dizendo, a ausência de ruptura social hipster.

Todo movimento cultural progressivo pretende romper, ao menos com alguns aspectos, do marco social em que surge e expressa isso mediante sua estética. A estética agressiva do punk, ou a provocadora do indie, não era mais que a expressão de uma mudança mais profunda. Ainda que estes movimentos não pretenderam uma ruptura total com o sistema capitalista, ao menos havia certos aspectos sociais que pretendiam superar, e neste sentido puderam se definir em seu contexto como progressivos e gozaram de grande protagonismo entre alguns setores populares. Contudo, a nova cultura hipster não pretende romper com o marco social do capitalismo, nem com muitos de seus valores; sua aspiração se baseia em aumentar sua capacidade de consumo.

Não surpreende em nada que as grandes multinacionais exprimam essa ideia de (falsa) resistência. Um marco publicitário foi a campanha que a Apple lançou em 1984, na qual apresentava quem se encantava por esse tipo de tecnologia com um “contestador” diante da uniformidade que representava a Microsoft. Hoje é comum que grandes marcas continuem recorrendo a esta ideia e utilizando figuras que algum dia foram contraculturais. Recentemente, Iggy Pop, figura do punk rock, deu seu rosto à Schweppes; também o líder dos Sex Pistols, Johnny Rotten, ajudou com sua imagem o aumento de vendas de uma das marcas de manteiga inglesa DairyCrest, e alguns dos representantes do “Movimento” deram um toque underground a produtos como a cerveja Mahou. Também pudemos escutar esses dias um dos sucessos de Janis Joplin, Cry Baby, anunciando uma companhia telefônica.

O sucesso dessa cultura individualista, baseada em sua estética underground, se apoia na visão de contracultura e diferença. E neste afã de diferenciação, a cultura hipster é brutalmente reacionária em seu enorme desprezo a outros jovens que se identificam com setores sociais mais populares por sua maneira de se vestir, os lugares em que passam seu tempo livre, a literatura que consomem e os programas televisivos que assistem. Um chándal pode ser que não seja tão “cool” como Levis, e escutar música saída diretamente de seu carro em um estacionamento também não é o mesmo que gastar uma fortuna em uma entrada para o Sonar. A maneira depreciativa como se dirigem a quem expressa gosto “pouco refinado”, mais populares, como chonis, canis no Estado Espanhol ou os chavs britânicos, fomenta um ódio contra as classes mais populares. O rechaço a quem expressa características culturais e hábitos mais próprios de setores castigados pelo desemprego e a precariedade responde à estratégia lançada pelo neoliberalismo para responsabilizar as classes trabalhadoras pelas suas desgraças, justificando assim a existência de elites que acumulam a maior parte da riqueza “graças a seu esforço e inteligência”. O desemprego, a pobreza, os baixos níveis educativos antes podiam ser vistos como falhas do sistema capitalista, ou, em sua versão mais moderada, como uma má gestão dos governos de plantão, mas nas décadas passadas os problemas como o desemprego ou a pobreza passaram a ser vistas como “questões pessoais”.

Uma das advertências que faz Victor Lenore em sua “Crônica de uma dominação cultural”, é justamente o giro direitista e reacionário que deu este fenômeno “e esta falta de consciência se transformou diretamente em desprezo de classe”. Quem não lê o filósofo esloveno Slavoj Zizek não tem a capacidade intelectual para ser um hipster, mas esta (sub)cultura não para e pensa que a capacidade para ler textos filosóficos passa por seu nível educacional.

“A cultura moderna é um excelente lubrificante para o consumo que não cria nenhum problema político para ninguém com poder no mercado” afirma Victor Lenore, algo que junto ao desenvolvimento de um ódio contra os grupos sociais mais empobrecidos converte essa (falsa) subcultura em bastante reacionária.

A ideia que assumiu o indie de que esse sistema é o único possível, ao ser absorvido pelo mercado e pelo capital, nos situa em um cenário de “salve-se quem puder” sempre e quando o faça de maneira mais estilizada, visitando exposições de arte contemporânea, vendo filmes de Wes Anderson e fazendo a rota de verão pelos festivais mais indies e, diga-se de passagem, que têm os ingressos mais caros.

A cultura hoje denominada hipster, vertente do individualismo mais atual, não se baseia unicamente no ascenso econômico, mas se centra na imagem. Em aspirações individualistas que nos fazem perder o sentimento coletivo, de classe. Aspirações cruéis que contradizem profundamente nossas condições atuais e representam o triunfo da cultura capitalista.

Esta situação, contudo, hoje parece estar mudando. No marco da crise capitalista, os movimentos sociais, políticos, as greves operárias e os levantes estão começando a ser cada vez mais protagonistas. O desenvolvimento destes movimentos mais à esquerda supõem o começo de um questionamento ao capitalismo e suas expressões culturais. Com o surgimento de certos fenômenos como o 15M no Estado Espanhol, Occupy Wall Street ou a praça Syntagma, as mobilizações operárias e populares, os aspectos políticos, econômicos e sociais do capital começam a ser questionados e entre tudo isso o individual começa a perder hegemonia frente ao coletivo. Começar a questionar todos os aspectos próprios do capital, todos aqueles valores culturais que sustentam um sistem baseado em uma profunda desigualdade, pressupõe um passo adiante na luta de classes.

*Este artigo foi publicado originalmente na Revista Contracorriente

Edward Snowden: carta aberta | open letter | carta abierta | Brasil | Brazil

Reproduzo uma carta publicado no dia 16/12/2013, onde o ex-NSA Edwardo Snowden faz um chamado ao povo brasileiro, antecipando em partes o atual contexto político de nosso país. Não se trata de uma teoria conspiratória, mas de uma constatação tecnopolítica.

edwardsnownden

Carta Aberta ao Povo do Brasil

Tradução de Clara Allain

Seis meses atrás, emergi das sombras da Agência Nacional de Segurança (NSA) dos EUA para me posicionar diante da câmera de um jornalista.

Compartilhei com o mundo provas de que alguns governos estão montando um sistema de vigilância mundial para rastrear secretamente como vivemos, com quem conversamos e o que dizemos.

Fui para diante daquela câmera de olhos abertos, com a consciência de que a decisão custaria minha família e meu lar e colocaria minha vida em risco. O que me motivava era a ideia de que os cidadãos do mundo merecem entender o sistema dentro do qual vivem.

Meu maior medo era que ninguém desse ouvidos ao meu aviso. Nunca antes fiquei tão feliz por ter estado tão equivocado. A reação em certos países vem sendo especialmente inspiradora para mim, e o Brasil é um deles, sem dúvida.

Na NSA, testemunhei com preocupação crescente a vigilância de populações inteiras sem que houvesse qualquer suspeita de ato criminoso, e essa vigilância ameaça tornar-se o maior desafio aos direitos humanos de nossos tempos.

A NSA e outras agências de espionagem nos dizem que, pelo bem de nossa própria “segurança” –em nome da “segurança” de Dilma, em nome da “segurança” da Petrobras–, revogaram nosso direito de privacidade e invadiram nossas vidas. E o fizeram sem pedir a permissão da população de qualquer país, nem mesmo do delas.

Hoje, se você carrega um celular em São Paulo, a NSA pode rastrear onde você se encontra, e o faz: ela faz isso 5 bilhões de vezes por dia com pessoas no mundo inteiro.

Quando uma pessoa em Florianópolis visita um site na internet, a NSA mantém um registro de quando isso acontece e do que você fez naquele site.

Se uma mãe em Porto Alegre telefona a seu filho para lhe desejar sorte no vestibular, a NSA pode guardar o registro da ligação por cinco anos ou mais tempo.

A agência chega a guardar registros de quem tem um caso extraconjugal ou visita sites de pornografia, para o caso de precisarem sujar a reputação de seus alvos.

Senadores dos EUA nos dizem que o Brasil não deveria se preocupar, porque isso não é “vigilância”, é “coleta de dados”. Dizem que isso é feito para manter as pessoas em segurança. Estão enganados.

Existe uma diferença enorme entre programas legais, espionagem legítima, atuação policial legítima –em que indivíduos são vigiados com base em suspeitas razoáveis, individualizadas– e esses programas de vigilância em massa para a formação de uma rede de informações, que colocam populações inteiras sob vigilância onipresente e salvam cópias de tudo para sempre.

Esses programas nunca foram motivados pela luta contra o terrorismo: são motivados por espionagem econômica, controle social e manipulação diplomática. Pela busca de poder.

Muitos senadores brasileiros concordam e pediram minha ajuda com suas investigações sobre a suspeita de crimes cometidos contra cidadãos brasileiros.

Expressei minha disposição de auxiliar quando isso for apropriado e legal, mas, infelizmente, o governo dos EUA vem trabalhando arduamente para limitar minha capacidade de fazê-lo, chegando ao ponto de obrigar o avião presidencial de Evo Morales a pousar para me impedir de viajar à América Latina!

Até que um país conceda asilo político permanente, o governo dos EUA vai continuar a interferir com minha capacidade de falar.

Seis meses atrás, revelei que a NSA queria ouvir o mundo inteiro. Agora o mundo inteiro está ouvindo de volta e também falando. E a NSA não gosta do que está ouvindo.

A cultura de vigilância mundial indiscriminada, que foi exposta a debates públicos e investigações reais em todos os continentes, está desabando.

Apenas três semanas atrás, o Brasil liderou o Comitê de Direitos Humanos das Nações Unidas para reconhecer, pela primeira vez na história, que a privacidade não para onde a rede digital começa e que a vigilância em massa de inocentes é uma violação dos direitos humanos.

A maré virou, e finalmente podemos visualizar um futuro em que possamos desfrutar de segurança sem sacrificar nossa privacidade.

Nossos direitos não podem ser limitados por uma organização secreta, e autoridades americanas nunca deveriam decidir sobre as liberdades de cidadãos brasileiros.

Mesmo os defensores da vigilância de massa, aqueles que talvez não estejam convencidos de que tecnologias de vigilância ultrapassaram perigosamente controles democráticos, hoje concordam que, em democracias, a vigilância do público tem de ser debatida pelo público.

Meu ato de consciência começou com uma declaração: “Não quero viver em um mundo em que tudo o que digo, tudo o que faço, todos com quem falo, cada expressão de criatividade, de amor ou amizade seja registrado. Não é algo que estou disposto a apoiar, não é algo que estou disposto a construir e não é algo sob o qual estou disposto a viver.”

Dias mais tarde, fui informado que meu governo me tinha convertido em apátrida e queria me encarcerar. O preço do meu discurso foi meu passaporte, mas eu o pagaria novamente: não serei eu que ignorarei a criminalidade em nome do conforto político. Prefiro virar apátrida a perder minha voz.

Se o Brasil ouvir apenas uma coisa de mim, que seja o seguinte: quando todos nos unirmos contra as injustiças e em defesa da privacidade e dos direitos humanos básicos, poderemos nos defender até dos mais poderosos dos sistemas.

Carta Abierta al Pueblo de Brasil

Traducido por Natalia Fabeni

Seis meses atrás, emergí de las sombras de la Agencia Nacional de Seguridad (NSA) de los Estados Unidos para pararme frente a la cámara de un periodista.

Compartí con el mundo pruebas de que algunos gobiernos están montando un sistema de vigilancia mundial para rastrear secretamente cómo vivimos, con quién conversamos y qué decimos.

Me paré delante de aquella cámara con los ojos abiertos, consciente de que la decisión me costaría mi familia y mi hogar, y que además colocaría en riesgo mi vida. Lo que me motivaba era la idea de que los ciudadanos del mundo merecen entender el sistema dentro del cual viven.

Mi miedo más grande era que nadie escuchara mi aviso. Nunca antes estuve tan feliz de haber estado tan equivocado. La reacción en ciertos países viene siendo especialmente inspiradora para mi, y Brasil es uno de ellos, sin dudas.

En la NSA fui testigo, con creciente preocupación, de la vigilancia de poblaciones enteras sin que hubiera cualquier sospecha de actos criminales. Esa vigilancia amenaza volverse el mayor desafío a los derechos humanos de nuestros tiempos.

La NSA y otras agencias de espionaje nos dicen que, por el bien de nuestra propia “seguridad”, en nombre de la “seguridad” de Dilma, en nombre de la “seguridad” de Petrobras revocaron nuestro derecho a la privacidad e invadieron nuestras vidas. Y lo hicieron sin pedir permiso a la población de ningún país.

Hoy, cuando una persona carga un teléfono celular en São Paulo, la NSA puede rastrear dónde uno está, y lo hace: hace eso 5000 millones de veces por día con personas del mundo entero.

Cuando una persona en Florianópolis visita un sitio en Internet, la NSA mantiene un registro de cuándo eso sucedió y de lo que uno hizo. Si una madre en Porto Alegre llama por teléfono a su hijo para desearle suerte en un examen, la NSA puede guardar el registro de la llamada por cinco años o más.

La agencia llega a guardar registros de quien tiene una relación extramatrimonial o visita sitios de pornografía, en caso de que precisen ensuciar la reputación de esas personas.

Senadores de Estados Unidos nos dicen que Brasil no debería preocuparse, porque eso no es “vigilancia” sino “recolección de datos”. Dicen que hacen eso para mantener a las personas seguras Están equivocados.

Existe una gran diferencia entre programas legales, espionaje legítima, actuación policial legítima, en donde individuos son vigilados porque se tiene una sospecha razonable sobre ellos, y esos programas de vigilancia en masa para la formación de una red de informaciones, que colocan poblaciones enteras bajo una vigilancia omnipresente y guardan copias de todo para siempre.

Esos programas nunca fueron motivados por la lucha contra el terrorismo: son motivados por espionaje económico, control social y manipulación diplomática. Por la búsqueda de poder.

Muchos senadores brasileños están de acuerdo y pidieron mi ayuda con sus investigaciones sobre la sospecha de crímenes cometidos contra ciudadanos brasileños.

Expresé mi disposición a ayudarlos cuando fuera apropiado y legal, pero infelizmente el gobierno de Estados Unidos viene trabajando arduamente para limitar mi capacidad de hacerlo, llegando al punto de obligar a que el avión presidencial de Evo Morales aterrizara para impedirme de viajar a América latina.

Hasta que un país me conceda asilo político permanente, el gobierno de Estados Unidos va a continuar interfiriendo con mi capacidad de hablar.

Seis meses atrás, revelé que la NSA quería escuchar al mundo entero. Ahora el mundo entero está también escuchando y hablando. Y a la NSA no le gusta lo que está oyendo.

La cultura de la vigilancia mundial indiscriminada, que fue expuesta a debates públicos e investigaciones reales en todos los continentes, está colapsando.

Solo tres semanas atrás, Brasil lideró un Comité de Derechos Humanos de las Naciones Unidas para reconocer, por primera vez en la historia, que la privacidad no termina donde la red digital comienza y que la vigilancia en masa de inocentes es una violación de los derechos humanos.

La marea cambió y finalmente podemos visualizar un futuro en donde podamos disfrutar de la seguridad sin sacrificar nuestra privacidad.

Nuestros derechos no pueden ser limitados por una organización secreta, y autoridades americanas nunca deberían decidir sobre las libertades de los ciudadanos brasileños.

Incluso los defensores de la vigilancia de masas, aquellos que tal vez no estén convencidos de que las tecnologías de vigilancia ultrapasaron peligrosamente los controles democráticos, hoy están de acuerdo en que, en democracias, la vigilancia del público tiene que ser debatida por el público.

Mi acto de consciencia comenzó con una declaración: “No quiero vivir en un mundo en que todo lo que digo, todo lo que hago, todos con los quien hablo, cada expresión de creatividad, de amor o de amistad sea registrada. No es algo que estoy dispuesto a apoyar, no es algo que estoy dispuesto a construir y no es algo bajo lo cual estoy
dispuesto a vivir”.

Días más tarde, fui informado de que mi gobierno me había convertido en un apátrida y que quería encarcelarme. El precio de mi discurso fue mi pasaporte, pero estoy dispuesto a pagarlo nuevamente: no seré yo el que ignore la criminalidad en nombre de la comodidad política. Prefiero no tener nacionalidad a perder mi voz.

Si Brasil escucha solo una cosa de mí, que sea la siguiente: cuando todos nos unimos contra las injusticias y en defensa de la privacidad y de los derechos humanos básicos, podremos defendernos hasta de los más poderosos sistemas.

An Open Letter to the People of Brazil

Edward Snowden

Six months ago, I stepped out from the shadows of the United States Government’s National Security Agency to stand in front of a journalist’s camera.

Espionage Whistleblower Edward Snowden to Seek Asylum in Brazil I shared with the world evidence proving some governments are building a world-wide surveillance system to secretly track how we live, who we talk to, and what we say.

I went in front of that camera with open eyes, knowing that the decision would cost me family and my home, and would risk my life. I was motivated by a belief that the citizens of the world deserve to understand the system in which they live.

My greatest fear was that no one would listen to my warning. Never have I been so glad to have been so wrong. The reaction in certain countries has been particularly inspiring to me, and Brazil is certainly one of those.

At the NSA, I witnessed with growing alarm the surveillance of whole populations without any suspicion of wrongdoing, and it threatens to become the greatest human rights challenge of our time.

The NSA and other spying agencies tell us that for our own “safety” –for Dilma’s “safety,” for Petrobras’ “safety”– they have revoked our right to privacy and broken into our lives.

And they did it without asking the public in any country, even their own.

Today, if you carry a cell phone in Sao Paolo, the NSA can and does keep track of your location: they do this 5 billion times a day to people around the world.

When someone in Florianopolis visits a website, the NSA keeps a record of when it happened and what you did there. If a mother in Porto Alegre calls her son to wish him luck on his university exam, NSA can keep that call log for five years or more.

They even keep track of who is having an affair or looking at pornography, in case they need to damage their target’s reputation.

American Senators tell us that Brazil should not worry, because this is not “surveillance,” it’s “data collection.” They say it is done to keep you safe. They’re wrong.

There is a huge difference between legal programs, legitimate spying, legitimate law enforcement –where individuals are targeted based on a reasonable, individualized suspicion – and these programs of dragnet mass surveillance that put entire populations under an all-seeing eye and save copies forever.

These programs were never about terrorism: they’re about economic spying, social control, and diplomatic manipulation. They’re about power.

Many Brazilian senators agree, and have asked for my assistance with their investigations of suspected crimes against Brazilian citizens.

I have expressed my willingness to assist wherever appropriate and lawful, but unfortunately the United States government has worked very hard to limit my ability to do so –going so far as to force down the Presidential Plane of Evo Morales to prevent me from traveling to Latin America!

Until a country grants permanent political asylum, the US government will continue to interfere with my ability to speak.
Six months ago, I revealed that the NSA wanted to listen to the whole world. Now, the whole world is listening back, and speaking out, too. And the NSA doesn’t like what it’s hearing.

The culture of indiscriminate worldwide surveillance, exposed to public debates and real investigations on every continent, is collapsing.

Only three weeks ago, Brazil led the United Nations Human Rights Committee to recognize for the first time in history that privacy does not stop where the digital network starts, and that the mass surveillance of innocents is a violation of human rights.

The tide has turned, and we can finally see a future where we can enjoy security without sacrificing our privacy. Our rights cannot be limited by a secret organization, and American officials should never decide the freedoms of Brazilian citizens.

Even the defenders of mass surveillance, those who may not be persuaded that our surveillance technologies have dangerously outpaced democratic controls, now agree that in democracies, surveillance of the public must be debated by the public.

My act of conscience began with a statement: “I don’t want to live in a world where everything that I say, everything I do, everyone I talk to, every expression of creativity or love or friendship is recorded.

That’s not something I’m willing to support, it’s not something I’m willing to build, and it’s not something I’m willing to live under.”

Days later, I was told my government had made me stateless and wanted to imprison me. The price for my speech was my passport, but I would pay it again: I will not be the one to ignore criminality for the sake of political comfort. I would rather be without a state than without a voice.

If Brazil hears only one thing from me, let it be this: when all of us band together against injustices and in defense of privacy and basic human rights, we can defend ourselves from even the most powerful systems.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2013/12/1386291-leia-integra-da-carta-de-snowden-ao-brasil.shtml

O Globo: Juca Ferreira abre fogo contra a Lei Rouanet

Ministro critica mecanismo de fomento e anuncia: irá ao Senado para que empresas deduzam, no máximo, 80% do que investem em projetos culturais

por Fátima Sá / Cristina Tardáguila – 06/02/2015 6:00

jucaferreiraRIO — De volta ao Ministério da Cultura (MinC), que comandou de 2008 a 2010, o sociólogo baiano Juca Ferreira, 66 anos, quer modificar o principal mecanismo de fomento à Cultura no país. Ele promete brigar para reduzir o teto da renúncia fiscal. Hoje, as empresas podem deduzir de seus impostos 100% do valor que investem em projetos culturais. Juca quer que o teto seja de 80%. Segundo a proposta dele, os 20% restantes deveriam ser destinados ao Fundo Nacional de Cultura (FNC), permitindo que o governo decida onde colocar esse dinheiro. Procurado, o Ministério do Planejamento não quis se pronunciar sobre essa hipótese. Em entrevista ao GLOBO, o ministro também falou de outros temas que dependem de forte articulação em Brasília: a Lei de Direito Autoral e o Vale-Cultura. Ele ainda detalhou seus planos para a Funarte e a Cinemateca Brasileira e o modo como pretende fortalecer a cultura num ano de crise financeira e política.

O senhor tem feito críticas à Lei Rouanet. Rever o principal mecanismo de fomento da cultura nacional será uma bandeira do MinC?

Sou bastante crítico à Lei Rouanet e formei minha opinião com base nos dados do IBGE e do Ipea. A lei criou uma ilusão de que haveria uma parceria público-privada financiando a cultura. Não é verdade. O ministério tem em torno de 300 funcionários para analisar projetos (que disputam o direito de captar recursos junto a empresas que pretendam investir em cultura via renúncia fiscal). Há uma quantidade astronômica de propostas todos os anos, e muitas recebem aval para captar o benefício. Só que apenas 20% conseguem, e isso fica concentrado em dois estados. Oitenta porcento do total renunciado vai para (os estados de) Rio e São Paulo. Sessenta por cento, para duas cidades (as capitais), e são sempre os mesmos (proponentes) que recebem: os que dão retorno de imagem às empresas. Não é culpa da empresa. Se criamos um mecanismo para isso, ele pode ser usado. Mas não é parceria público-privada. É outra coisa.

É o quê?

Esse dinheiro corresponde a 80% do que o governo federal tem para financiar atividades culturais no Brasil. Levando em consideração o que eu falei, me diga: é possível desenvolver política pública assim? A Rouanet dá a aparência de parceria público-privada, mas é a empresa decidindo onde vai aplicar o dinheiro, é a privatização de recursos públicos para construir imagens de empresas, algumas delas altamente lucrativas.

Qual seria a saída?

A saída é depositar esse dinheiro — não pode ser menos — no Fundo Nacional de Cultura (FNC) e criar mecanismos de avaliação de projetos que definam uma distribuição mais justa de recursos, capaz de financiar a cultura em todo o território nacional e em todas as linguagens.

Mas, ao entregar ao governo a decisão sobre quem financiar, corremos o risco de haver um dirigismo cultural no Brasil, não?

Dirigismo cultural é feito também pelo mercado. Temos uma hipersensibilidade para o dirigismo público e nenhuma sensibilidade para o dirigismo de mercado. É preciso ter essa sensibilidade para ambos os lados, porque os dois são perversos. E a possibilidade de corrigir um dirigismo público é repetir o que é feito na Ancine, no Fundo Setorial do Audiovisual. Com a participação da sociedade, com transparência, com lisura política, não dentro do balcão de uma repartição. Não rejeito a parceria público-privada. Basta olhar meu trabalho recente (como secretário municipal de Cultura) em São Paulo. Trabalho com instituições privadas. Agora, colocar tudo para o outro decidir, não existe. É uma distorção do governo Collor.

E como fica a renúncia?

Fica igual, mas (a dedução) não pode ser de 100%. O teto da renúncia ficará em 80% (na proposta do ministro, os 20% restantes iriam para o Fundo Nacional de Cultura, para atender a projetos de interesse da política cultural do governo).

Mas isso não está no projeto Procultura elaborado pelo ministério, aprovado na Câmara e atualmente à espera de apreciação no Senado…

Não. Depois que saímos (do governo Lula), o projeto mudou. Mas isso para mim é vital. Senão, não tem política pública em cultura. Então, eu tenho duas saídas: trabalhar com o Senado para recuperar a lógica central ou pedir de volta o projeto. Eu prefiro trabalhar com o Senado, mas as estratégias de relação com o parlamento ultrapassam meu limite.

O senhor fala então de fazer emendas ao projeto. Mas quem será o defensor da cultura no Senado? Ainda mais com as críticas da ex-ministra Marta Suplicy à sua gestão.

Minha experiência com o parlamento é boa. Quem mais me ajudou a incluir as empresas culturais no Supersimples, por exemplo, foi o finado (deputado federal) Sérgio Guerra (1947-2014), líder do PSDB. Não sou sectário. Tenho responsabilidade pública e trabalho com a diversidade cultural política e regional de todas as dimensões. Não posso responder agora, mas vou construir uma estratégia. E a dificuldade com a Marta é circunstancial. Não acredito em oposição dela.

Por que o senhor critica os 100% da Lei Rouanet e não critica os 125% que a Lei do Audiovisual prevê de renúncia para as empresas?

Eu implico com os dois. Mas, para subir uma escada, temos que dar o primeiro passo, temos que pisar no primeiro degrau. Há meninos que saem pulando de dois em dois, mas a construção de uma política pública cultural é um processo. Não sou um imperador, mas um ministro que trabalha com a ideia de gestão compartilhada. Tenho uma avaliação positiva do avanço do audiovisual. Não quero ser fator de transtorno.

Mas, ao reduzir a porcentagem de renúncia de uma lei e adiar a mudança da outra, o senhor vai desequilibrar o mercado. As empresas tendem a passar a usar a Lei do Audiovisual…

Vamos supor que isso seja verdade e que, temporariamente, aconteça. Na transição, o dinheiro que se tinha continuará se tendo. Essa é a questão. Mesmo que um ministro malvado inviabilize a parceria público-privada, 100% (dos impostos) estarão com o poder público de toda forma e serão destinados à cultura (hoje, os impostos vão para o caixa do governo, e podem , ou não, ser usados no setor). Não vamos perder nada. Se houver represália por parte de quem se associa ou por parte de quem usa a lei, eles perdem, deixando de se associar a um grande ativo.

Num ano em que o governo e o Congresso estão preocupados com ajustes econômicos e com escândalos de corrupção, o senhor também terá o desafio de destravar a nova Lei do Direito Autoral, que está parada na Casa Civil.

Parada, não. E o Senado não é insensível nem quando falamos em modernizar as leis de fomento nem a Lei de Direito Autoral. Ela vai andar. Vai sair. E temos pela frente a tarefa de remontar o Conselho Nacional do Direito Autoral, que foi extinto. Será um órgão de controle público dentro do MinC e deve sair ainda no primeiro ano deste mandato. Temos uma obrigação, um prazo fixado por lei. E acho que a tecnologia digital e a internet criaram ambientes que, se ignorarmos, não haverá como garantir o direito autoral. Sou absolutamente contra a flexibilização dos direitos de autor. Sou a favor da ampliação eles, de garantir que o ambiente digital possa garantir isso. É da internet que tem que sair o pagamento do autor.

O orçamento do MinC é um dos que mais sofrem cortes. Em 2014, dos R$ 3 bilhões autorizados, só R$ 1 bilhão foi executado. Houve greves, e, segundo levantamento, 700 dos três mil servidores se aposentam até 2017. Como dosar isso?

O diálogo está bom, muito bom com a Casa Civil. Tenho um nível de respeito grande por parte do Palácio do Planalto tanto da presidência quanto dos ministros. O governo é um poliedro, um corpo que tem vários lados. Tem que tratar de saúde, educação… Cultura é política pública estratégica. A cultura não é a cereja do bolo, não é secundário. Sou solidário com as dificuldades que o governo precisa enfrentar. Não serei cricri. Mas a destinação do dinheiro público tem que ser discutida. O projeto (de Brasil) não pode ser economicista. É preciso construir um país, e isso não se faz só com vontade. É preciso ter um orçamento, e 2% é um mínimo possível (em 2014, o valor autorizado foi de 0,18% do orçamento total da União).

O vale-cultura foi um projeto que veio da sociedade e ganhou corpo na outra vez em que o senhor passou pelo MinC. A adesão, no entanto, tem sido baixa. Onde está o erro?

O vale-cultura está sendo implantado. Eu não diria que houve um erro. Se você comparar esse processo com o do vale-refeição, verá que a implantação também não foi fácil. Devem existir falhas de formatação. Já ouvi algumas delas, mas não quero adiantar nada. Vou pedir uma avaliação técnica porque não há a possibilidade de esse mecanismo ser subestimado, até porque quem o criou foi o ministro que aqui vos fala.

Qual é o caminho para aumentar a adesão?

Não é uma equação fácil. Tem que começar na escola, formando plateia, formando público, formando subjetividade para consumo de produtos de cultura. O vale-cultura é um instrumento facilitador. Para o empresário é bom porque cria um benefício que se reflete no ambiente de trabalho, na qualificação da mão de obra. Para os trabalhadores é ótimo, alimenta a necessidade cultural. Para o mercado também é bom porque vende mais. Vamos fazer essa primeira etapa de avaliação e corrigir falhas. É claro que tenho a consciência de que o momento é de muita precaução econômica. Está todo mundo jogando na retranca. Enquanto as políticas de enfrentamento da crise econômica (adotadas pelo governo federal) não derem resultado, a tendência é que todos fiquem nas trincheiras.

O senhor tem dado importância à Funarte em suas falas públicas. Quais os planos para a fundação?

O problema da Funarte é que ela entrou em decadência. Não fomos capazes de garantir sua renovação depois da transição da ditadura para a democracia, e ela não foi capaz de gerar processos. Todos nós, gestores, temos alguma responsabilidade nisso. Eu puxei logo para mim a minha parcela. Durante os oito anos do governo Lula, não fomos capazes de reverter esse processo de decadência. Pronto. Minha parte, eu assumo. Agora, ela está meio que falida, mas é um instrumento institucional importante. O primeiro passo (para recuperá-la) foi nomear um jovem intelectual, articulado: o Francisco Bosco. O segundo será constituir uma comissão para pensar a renovação das políticas para as artes, buscando um caráter nacional. O cinema foi capaz disso. A música, também. Mas estamos sem política para as artes. Não há política de formação. Temos escolas isoladas, músicos, atores e técnicos que são fruto de geração espontânea. O Brasil faz na arte o que faz com o futebol: extrativismo. Colhe talentos sem nenhum investimento.

Diz-se que a Funarte é carioca.

A Funarte parece carioca, mas não tem prestado serviço relevante nem para o Rio. Toda instituição tem que estar ancorada em algum território. Não é o lugar onde ela está que define sua eficiência e eficácia. O importante é revitalizá-la. Se precisarmos tirá-la (do Rio), tiramos, mas não detecto o fato de ela estar ancorada aqui como o problema.

E a Cinemateca Brasileira? É vista como uma entidade paulista…

Temos que ter muito cuidado e carinho com a Cinemateca. Ela sofreu um ataque especulativo, um processo absolutamente político. A imprensa tem que ter cuidado para não criar outra Escola Base (fechada em 1994, em São Paulo, após acusações de pedofilia que se revelaram infundadas. O inquérito foi arquivado por falta de provas, e os suspeitos de molestar crianças, inocentados). A Cinemateca tem três papéis importantes: preservar a memória do cinema e do audiovisual brasileiros, apoiar tecnicamente a produção cinematográfica e dar visibilidade a isso. Como a Funarte, no Rio, a Cinemateca virou uma instituição paulista, mas ela tem que prestar serviço a todo o Brasil. Na área da visibilidade, está muito concentrada em São Paulo e no prédio dela.

A Controladoria-Geral da União investiga repasse de R$ 105 milhões feitos na sua gestão e usados sem licitação. O que realmente aconteceu?

Investimos R$ 105 milhões em equipamentos de melhor qualidade. A Cinemateca é reconhecida internacionalmente como a terceira melhor do mundo. Por que vai ser questionada por isso? Tem que ser questionado aquele que permite sua decadência, que mete a mão na coisa pública ou que deixa de prestar serviço. As pessoas da Sociedade de Amigos da Cinemateca (que recebeu o montante) são da qualidade de Ismail Xavier, Bresser-Pereira. E eu já disse: tragam fogo, que eu ponho a mão no fogo. É ignorância. Há um questionamento sobre a compra do acervo completo de Glauber Rocha sem licitação. Como vai licitar obra singular e original? Custou R$ 3 milhões e pouco, cerca de um terço do que o governo dá para financiar um filme.

O senhor está aborrecido com isso.

É evidente que sim. Isso é uma ignorância. Eu boto a mão no fogo pelas pessoas da Sociedade. Quem tem que ter vergonha não são eles ou o ministério, mas quem reverbera uma coisa dessas. Eu quero que a CGU encerre o processo. Puna quem tem que punir e libere a instituição. Não há nada que justifique essa paralisia. Acho até que os órgãos de controle caíram numa cilada feita para tentar obscurecer uma ação grandiosa que foi criada num determinado momento.

Mas o que pretende fazer, objetivamente?

A Cinemateca precisa retomar o trabalho. Vamos modernizá-la administrativamente. Está em estudo a criação de uma OS para termos facilidades administrativas de gestão, porque essas instituições não podem funcionar bem sob o regime de administração direta. A burocracia é grande. Depois é preciso colocar nela uma diretoria do ramo, gente com capacidade para reerguê-la, que tenha envolvimento com a preservação da memória cinematográfica, conheça acervo brasileiro e não diga bobagens como que R$ 3 milhões pela obra de Glauber é caro.

Retomando as atividades em 2015

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Os últimos três anos foram intensos para a vida cultural no Brasil e, em especial, no Paraná. Espero, se a agenda profissional me permitir, começar a elencar alguns movimentos e campanhas das quais esse blog se engajou. Também será o momento de publicizar algumas vivências culturais na cidade do Rio de Janeiro e espinafrar o óbvio cultural de Curitiba.

Enquanto a Cidade Maravilhosa resiste ao desastre dos megaeventos e de todo o gerenciamento neoliberal da (in)gestão Paes. Na Província das Araucárias, o picadeiro eleitoral de 2016 já começou. Haja visto o último incidente no tal CarnaVibe. De um lado a política tosca de eventos da FUCUCU. Que tem como mote “levar” o acesso à “cultura” para todos. Do outro lado, o xerife do Paraná com a sua truculenta política de repressão. Que tem como mote “levar” o acesso à “segurança” para todos.

Essa confrontação entre Prefeitura de Curitiba e Governo do Paraná servem para duas coisas: 1) exibir a incompetência das partes envolvidas; 2) desviar a atenção para o verdadeiro problema, isso se é que existe um problema; 3) manter até o final do mandato do Fruet a equipe de pulhas que “administram” a FUCUCU; 4) formalizar uma chapa protofascista para disputar a prefeitura no próximo ano; 5) desviar a atenção da crise que o sistema de transporte público da capital e da região metropolitana sofrem.

Dentro das postagens futuras, penso em relatar os seguintes momentos e campanhas: 1) a tensa votação da lei estadual das OS no Paraná em 2011; 2) a confusa Conferência Municipal de Cultura de 2011; 3) a crise do Mecenato de Curitiba; 4) a precária eleição do Conselho Estadual da Cultura do Paraná e o impacto no meio cultural da derrota eleitoral Prefeito de Curitiba, Luciano Ducci, no 1º turno em 2012; 5) a formação da Delegacia da Cultura e a mobilização na Conferência Municipal de Cultura de 2013; 6) o fiasco da Conferência Estadual de Cultura e a campanha #contrafusão da Secretaria Estadual de Cultura com a de Turismo; 7) a criação da FACA e a sua intervenção na Conferência Extraordinária de Cultura de Curitiba em 2014; 8) as dualidades da atual administração da FCC; 9) o fiasco da gestão estadual de cultura do Paraná; 10) a reformulação da ABD/RJ e os embates contra a RioFilme, ANCINE e Superintendência de Audiovisual do Estado do Rio de Janeiro.

ABD/RJ: Instrução Normativa Classificação de Nível – ANCINE

Ao analisar a IN que “Estabelece critérios para a classificação de nível de empresa produtora brasileira independente, para fins de captação de recursos por meio de fomento indireto, e dá outras providências.”, em consulta pública até 08/02, encontramos alguns pontos a serem ajustados e algumas dúvidas que merecem esclarecimento, antes da IN ser colocada em vigor.

A intenção da ABD RJ Audiovisual Independente é colaborar para que entre em vigor a melhor IN possível, respeitando-se a importância de todos os atores e formatos.

Continua…