Cobertura 4º “Olhar de Cinema”, dia 6.

Por Alexander Aguiar.

Era difícil iniciar um novo dia de filmes após ainda estar com “Johnny Guitar” colado nas retinas e ressonando nos tímpanos por conta da exibição da noite anterior, mas era algo que precisava ser feito.
Aliás, uma das grandes dificuldades em festivais é conseguir se desligar de uma obra pra encarar outra logo na sequência, algo que requer uma certa prática e desapego (e muitas anotações, caso queira voltar a um ponto específico de um determinado filme), mas que é necessária diante de uma programação tão vasta em poucos dias.

Meu dia de exibições se iniciou com o longa mexicano “Maldade“, dirigido por Joshua Gil Delgado. Não foi preciso mais de um plano para eu estar completamente imerso naquele cenário. Aliás, que plano… a abertura do filme se dá com um imenso canavial em chamas durante a noite, em uma sequência longa, onde vemos as chamas consumirem a vegetação enquanto silhuetas humanas percorrem a paisagem como fantasmas vagando no relento. Magistralmente, o fogo se encerra no instante em que amanhece, e os primeiros raios da aurora substituem as luzes das chamas já extinguidas. Esse plano nos revela de cara dois elementos que serão as tônicas do filme: a zona rural como palco principal das ações que movem os personagens e essa relação violenta do homem para com o seu meio – seja ele a natureza, o próximo ou a sociedade num todo. O filme, que mistura trechos de ficção com registros documentais, por vezes se perde em sua própria narrativa, se tornando preciosista em apostar em imagens que não dizem muita coisa. Os rostos expressivos de seus personagens principais revelam esse isolamento solitário associado à hostilidade do mundo que os rodeia, e o desejo do protagonista de transformar sua história de vida e canções em filme acabará por trazer à tona o ambiente urbano, permeado por manifestações populares, onde o filme se encerra, escancarando o contraste de um mundo em ostracismo que perde espaço diante de uma efervescente e emergente realidade imediatista, onde questões pessoais seguem à margem da massa coletiva que assim como o fogo de seu plano inicial, ascende para em seguida tornar-se um fragmento do passado, enquanto a vida e a sociedade encontram seu próprio fluxo de perpetuação em meio às mudanças.

Dando continuidade, entrei na sessão de “Fog“, mais um filme que aposta no silêncio/isolamento de seus personagens, dirigido pela suíça (residente na Alemanha) Nicole Vögele. A temática, recorrente em diversos filmes no festival, nesse caso não é um pano de fundo, mas sim seu ponto de partida. A neblina e o frio que envolvem um ambiente comum acaba por atingir e unificar, ainda que de forma completamente separada, pessoas que possuem vivem uma condição extremamente solitária em seu trabalho: o homem que trabalha no planetário, a mulher que trabalha no Pet Shop e fala com os animais, o narrador do playground, etc., todos eles em ações quase mecânicas, sem contato com o próximo, o que em contraste com o exterior cinzento e nublado revela que essa paisagem que engloba os corpos quase que em uno jamais será uniforme em meio a dissonantes vozes internas que dialogam com mais nada além do eu-interior. Nesse sentido, nenhum experimentalismo na obra é novo, mas sua camada sonora tão densa quanto as imagens, com momentos musicais eletrônicos de puro som e fúria em contraposição ao “silêncio” das paisagens brancas são dignos de reconhecimento. Um filme com boas imagens, boa trilha musical, mas que por não se aprofundar no lado humano de seus personagens acaba por justamente não revelar nada de novo diante de uma temática explorada à exaustão nos filmes contemporâneos.

Posteriormente, fui assistir ao único filme da Mostra Competitiva que de fato eu achei ruim: “Violencia“, dirigido pelo colombiano Jorge Forero. O filme tinha tudo para ser bom, afinal ele é bem filmado, bem arranjado tecnicamente, seu ritmo é bom, sua narrativa é envolvente, mas o sentimento que me dá após assistir aos 3 episódios distintos que compõem o longa é de um triplo coito interrompido. A relação de violência que amarra as subtramas são evidentes e ditam o tom de desesperança no coração daquela sociedade que se constrói em cima dela, seja através do refém das Forças Armadas Revolucionárias, seja através do jovem sem perspectiva de futuro que acaba se tornando guerrilheiro, seja nas distintas ocupações do chefe da guerrilha – e sua condição de amante em contraste com a de “preparador” do crime. As três histórias são narradas de forma subsequente, sem que estejam diretamente entrelaçadas uma com a outra, mas que mostram diferentes perspectivas de um mesmo problema – que não se resolverá nunca, pois gera uma reação em cadeia que se retroalimenta. Nesse sentido, acaba se inclinando para uma espetacularização da violência, comum na cinematografia latina, mas que pouco acrescenta, pouco faz refletir.

"Stromboli", de Roberto Rossellini
“Stromboli”, de Roberto Rossellini

O melhor do dia ainda estava por vir.
Assim como na noite anterior, eu havia há tempos me programado para assistir na tela grande o clássico “Stromboli“, do mestre italiano Roberto Rossellini. Era a segunda vez em menos de um ano que eu teria a oportunidade de assistir a um longa do diretor no cinema (ano passado, foi exibido no CineBH o filme “Viagem a Itália”), ambos estrelados pela não menos genial Ingrid Bergman.
É difícil falar sobre filmes clássicos, em especial quando tudo o que poderia ser dito de relevante sobre eles já foi dito de maneira magistral por diversos nomes da crítica mundial, mas algo que há de ser levado em conta é a forma como um clássico nos atinge hoje em dia. Se a guerra, que há muito já se foi, não é uma realidade, o que de atemporal podemos notar em um filme como Stromboli? A decepção gerada por conta da expectativa de um amor a ser vivido. o preconceito/xenofobia, o medo do desconhecido, o sentimento de não-pertencimento, a solidão, a necessidade de um trabalho de subsistência que ao invés de gerar renda só gera ainda mais trabalho, os sonhos que se desfalecem, e a forma como “tudo o que é sólido desmancha no ar” – ou no caso diante da lava do vulcão que consome não só o espaço, mas a sanidade da protagonista que apela para a providência divina enquanto tenta em meio ao seu sofrimento encontrar um fio de esperança. Os gritos que aos poucos consomem nossa audição provam que muitos dos dilemas vividos anteriormente continuam mais presentes do que nunca, e justamente por isso filmes se transformam em clássicos atemporais, pois seus realizadores são capazes de diferenciar quais são questões universais em contraposição aos entretenimentos datados que se amontoam nas janelas de exibição cinema afora.
Reza a lenda que ainda existe mais uma dezena de DCP’s de filmes do Rossellini por aí, fico torcendo pra uma retrospectiva em breve.

E por falar em Olhar Retrospectivo, hoje e amanhã ainda rola na Cinemateca de Curitiba a exibição de clássicos do cineasta francês Jacques Tati. Confira!

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