Cobertura 4º “Olhar de Cinema”, dia 7.

Por Alexander Aguiar.

O sétimo (e penúltimo) dia de programação do Olhar de Cinema já dava sinais de que as atrações iriam chegando ao fim. Nesse dia a programação começou um pouco mais tarde, e eu enfim terminaria de assistir a todos os longas Mostra Competitiva.

Aproveitando que não havia nenhum longa-metragem programado nas primeiras horas de festival (exceto a reapresentação do magistral “Ela Volta na Quinta”, dirigido pelo conterrâneo André Novais, que já assisti anteriormente em duas outras oportunidades), resolvi assistir ao Programa 1 da Mostra Competitiva de Curtas. Nenhum em especial me chamou muita atenção, embora todos tivessem alguma ponto interessante a analisar, em especial questões sobre pertencimento, identidade, situação diante do mundo – temáticas recorrentes no festival que acabam por espelhar inquietações artísticas da era contemporânea. Por fim, priorizando os longas, acabei por não assistir aos curtas do programa 2 (de onde saiu o vencedor, “A Festa e os Cães”, de Leonardo Mouramateus), então acredito que nem tenho algo de fato relevante a dizer sobre os curtas em si.

Saindo da sessão de curtas, assisti ao longa “Snakeskin“, de co-produção Portuguesa/Singapuriana, dirigido por Daniel Hui. O filme, que mistura questões documentais com experimentais se diferencia muito dos outros longas exibidos na janela “Outros Olhares”. Unindo diversos depoimentos sobre um passado-presente do ponto de vista de um futuro imaginário, o filme traça paralelos e alternativas possíveis sobre a formação da identidade Singapuriana, estabelecendo limites entre as heranças Chinesas, Indianas e Malai, bem como a herança colonial e antiga relação com a Malásia. Aos poucos vamos conhecendo os personagens principais que concedem voz aos depoimentos que costuram a história, onde duas vozes parecem se sobressair: a de uma cineasta que busca compreender os limites do cinema, e como esses limites podem revelar algo para além do bem e do mal; e de um homem perseguido dentro de seu próprio território, que narra a ascensão e queda de um antigo culto, bem como as dificuldades de exílio em uma Cidade-Estado, aonde o único refúgio que lhe parecia inicialmente razoável seria a própria sala de cinema. Seguindo essas premissas, o filme estabelece uma reflexão muito direta sobre os limites entre o cinema e a vida, sobre a capacidade que o audiovisual possui de estabelecer um conceito coletivo de memória, e onde esse conceito encontraria as fronteiras entre o real e o imaginário. Dessa forma, o filme consegue emular ideias de George Orwell sobre o controle de informação junto de imagens do presente de um país, que por sua vez acabam por remeter a um futuro distópico. Quais seriam as possíveis fronteiras entre o que é e o que se acredita ser, propagado por gerações, que concretiza um histórico opressor formando dessa forma um onisciente coletivo? Questões por vezes distantes da nossa realidade, mas que no fim das quase 2 horas de filme nos faz ter uma única certeza: “Quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente, controla o passado”.

Na sequência, iria ver os dois longas restantes da programação competitiva, iniciando por “A Proletarian Winter’s Tale“, filme alemão dirigido por Julian Radlmaier. O filme, ao contrário da grande maioria dos longas europeus exibidos na programação do festival, não propunha questionamentos sérios acerca da solidão, da condição humana e das consequências da globalização – pelo contrário, era simples, de humor refinado e sarcástico, que tratava na improbabilidade do microcosmo uma relação imutável da sociedade moderna: a luta de classes. Três faxineiros são responsáveis pela limpeza de um antigo castelo, mas estes jamais farão parte da casta que gerencia ou que transita por esse espaço-palco durante seu horário de funcionamento oficial. As obras de arte expostas no castelo desde o início nos fazem pensar conceitualmente sobre o valor artístico dessas obras em si, sempre apelando para um lado humorístico cáustico, que critica a intelligentsia e o status-quo cultural. Dispostos a romper as diferenças que os separam dessa elite, os trabalhadores contam a si mesmos histórias desconexas, que muito pouco – ou mesmo nada – dialogam com a situação com que eles enfrentam, mas que servem como parábolas motivadoras que os leva a “invadir” aquele espaço que também os acolhe em outro tempo, em busca de saciar o mais básico dos instintos: a fome, instigada pela certeza de haver um enorme bolo reservado aos convidados. Essas parábolas, ainda que desprovidas de um sentido lógico na narrativa, garantem ao filme um tom de deboche para com as tradições, com destaque para a impagável cena onde Catarina, a Grande, antiga Imperatriz Consorte da Rússia é invocada em um ritual que reúne um guru espiritual com o chefe de uma fábrica de parafusos na antiga União Soviética e culmina com a punição de um empregado da supracitada fábrica, revelando conceitualmente que na eterna luta de classes existe somente um tipo de vítima: o proletariado.

Plano com imagem côncava, distorcida e ao mesmo tempo deslumbrante em "Lucifer", co-produção Belga/Mexicana.
Plano com imagem côncava, distorcida e ao mesmo tempo deslumbrante em “Lucifer”, co-produção Belga/Mexicana.

Para finalizar o dia – e a Mostra Competitiva, consequentemente – fui assistir ao filme mexicano/belga “Lucifer“, de Gust Van Den Berghe. Logo em seus créditos iniciais, podemos notar que a janela do filme não corresponde ao que estamos acostumados a ver, sobretudo em uma época onde o Cinemascope e o 16×9 acabaram por praticamente sepultar os formatos de tela tradicionais de um passado não tão distante assim. A moldura circular não só funciona como um recorte, mas também acaba por abraçar um recurso técnico onde uma lente angular apontada para o infinito captura tudo ao redor, em um eixo de 360 graus, causando um efeito visual fantástico, com distorções que desde o início nos faz assimilar uma diferente concepção de naturalismo com a imagem.
O cenário rural onde a narrativa se desenvolve é, como em qualquer vilarejo de nações onde a Religião Católica predomina (incluindo a nós mesmos), um microcosmo permeado por uma noção de fé e superstição onde o mítico se confunde com o místico, e o conceito de bem e mal por vezes se confunde no imaginário popular. Um anjo desce dos céus para a Terra, e o conceito de milagre é desconstruído pela presença do outrora Anjo da Luz, figura que mitologicamente remete à sabedoria, à rebelião, ao anseio por igualdade e pela busca do desconhecido em detrimento do que era originalmente aceito como correto pela hierarquia celeste. Assim sendo, Lúcifer em sua passagem pela Terra não representa o bem ou o mal, mas a dualidade – na trama ele mostra os dois lados existentes nas diversas atividades cotidianas ao aproximar-se de uma família, capitaneada pela senhora Lupita, que cria sua neta Maria. Juntas, elas cuidam de Emanuel, um figurão aproveitador que busca o repouso absoluto em detrimento dos afazeres sociais e domésticos. Aliás, é preciso dizer, Emanuel é um dos personagens mais engraçados do cinema latino contemporâneo, portador de um carisma sem igual, que dificilmente será esquecido tão cedo por todos aqueles que tiveram a oportunidade de assistir ao filme. Após movimentar o cotidiano daquela comunidade, Lúcifer segue seu rumo para o outro plano, deixando para trás descrença, dúvidas, e até mesmo uma eventual saudade. Essa dualidade se revela não como crítica ou defensora de um ideal, mas como força motriz mantenedora dos princípios da fé e da tradição, que culmina justamente na integração dessa sociedade através da festa, da música, da celebração às tradições, onde o próprio microcosmo descrito através da moldura circular se expande, abrindo a tela junto a diversas interpretações sobre o próprio conceito do que é bom e do que é mau.

Com o fim do sétimo dia e da Mostra Competitiva, o Festival dava indícios de seu fim, que se concretizaria de fato no dia seguinte, último dia de exibições. Mas isso é assunto para a postagem seguinte.
Até lá, os órfãos de exibições podem conferir o segundo dia do Olhar Retrospectivo de Jacques Tati na Cinemateca de Curitiba, que ocorre hoje em diversos horários. Não deixe de conferir.

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