Cobertura 4º “Olhar de Cinema”, dia 8.

Por Alexander Aguiar.

Depois de uma semana movimentada, as atrações cinematográficas do Olhar de Cinema enfim conheciam seu último dia de exibição. Mais de 90 filmes de diversos países ao redor do mundo tiveram sua premiere na capital paranaense entre os dias 10 e 18 de junho de 2015.

Há mais de uma semana me preparava para assistir um dos filmes mais comentados do festival: “Homeland – Iraq Year Zero“, dirigido por Abbas Fahdel. O longa (longuíssima!), com mais de 5 horas e meia de duração documenta dois importantes momentos históricos do Iraque: a tensão pré-guerra, que acabou com a queda do ditador Saddam Hussein; e os resultados imediatos da ocupação norte-americana no país.
Fahdel, protegido por sua câmera, busca interferir o mínimo possível na história que sua lente registra, mas o fato de ele documentar diretamente a sua família, faz com que ele sempre seja trazido de volta para dentro da narrativa. Por mais contraditório que tal afirmação possa soar, suas filmagens encontram um limiar entre a obra de Frederick Wiseman, que através de sua câmera observa o mundo, junto das reflexões cotidianas e certeiras da câmera-olho de David Perlov em seus diários. As próprias palavras de Perlov podem descrever muito do trabalho de Fahdel: “Quando você filma um diário, o filme substitui a vida. (…) Você pode recriar a vida ou fragmentá-la.”
É através dessa fragmentação que Abbas Fahdel constrói um discurso harmônico onde há somente a tensão. A retratação de um lado humano em tempos de conflito faz com que o espectador se submerja em meio a história, onde qualquer momento de tensão é vivido à flor da pele, como se fossemos tão presentes na narrativa como a própria família do realizador. É um choque de realidade tentar compreender a visão de um país que vive à sua maneira uma espécie de “Guerra Fria”, sob o espectro da paranoia constante, onde famílias tentam transformar suas casas em fortalezas e toda a noção de existência se dá através da expectativa do ataque iminente. Ao adotar seu sobrinho Haidar, de apenas 11 anos como protagonista, Fahdel estabelece um ponto de vista que está sempre no limiar entre o abandono da inocência e a consciência de uma realidade dolorosa – se por um lado o vemos trabalhando horas a fio em um poço cavado em seu próprio quintal, também notamos que ele encara a guerra como possibilidade de não ter de frequentar aulas das quais ele não gosta. Com o passar das horas, notamos que Haidar talvez seja a pessoa mais madura de toda aquela família, justamente por emergir de uma geração que questiona as tradições e busca alternativas para esse mundo em crise que o permeia.
Já diria o velho ditado, por vezes o real é ainda mais estranho que a ficção. As propagandas televisivas pró-regime de Saddam são fantásticas, surreais, e mostram como um plano nacional de doutrinação pode perpetuar – e o pior, convencer a muita gente – a manutenção de um sistema que não beneficia ninguém, exceto a cúpula dos “amigos do rei”.
Em momento algum o longa se preocupa em dar conta do conflito, o corte que separa as suas duas partes ignora os bombardeios e ocupação norte-americana em si. O foco são as pessoas, e a forma como esses momentos as afetam direta ou indiretamente, e não a política nacional como um todo. Um segundo momento nos revelará que essa expectativa em prol de uma mudança positiva por conta da queda de Hussein se mostrará infundada, ao menos enquanto a barbárie de um for substituída pela barbárie de outros. Os escombros de Bagdá dividem, em clima de guerra civil, os soldados norte-americanos que muitas vezes atiram antes de perguntar, de saqueadores e gangues violentas que encontram na violência uma das únicas formas de sobrevivência, por conta da crise com o sistema de distribuição de cestas básicas que não necessariamente atendem a todos os necessitados, mesmo que por motivos completamente absurdos (por exemplo, habitantes de algumas cidades em específico não tem tal direito pois outrora não apoiaram o governo de Saddam, herança que se perpetua mesmo após a queda do antigo chefe de Estado).
Ao mostrar o cidadão médio, Abbas Fahdel acaba por revelar diversos contrastes entre os defensores de Saddam e aqueles que o condenam, revelando que alguns de seus familiares foram perseguidos e assassinados sem motivo aparente (um deles tinha apenas 13 anos quando foi abordado na escola e executado por forças oficiais). De qualquer forma, a suposta democracia americana jamais se revela como uma alternativa possível, e os locais compreendem que antes de tudo, a ocupação é uma decisão econômica: “A vida no Iraque era melhor antes do petróleo”, um deles afirma, em meio aos escombros do que um dia a cidade já foi. Estações de rádio, agências, ministérios, a memória cinematográfica de um país, todas amontoadas em meio à poeira, concreto e ferro retorcido, que servem de palco para brincadeiras infantis com cápsulas de projéteis e morteiros facilmente encontrados pelo chão.
O sentimento final é o de desolação, de desesperança, de saber que aquela população toda está fadada a conviver durante muito tempo com a presença de uma força hostil que os rege, qualquer seja sua origem, já que não há necessariamente um alinhamento ideológico em prol do benefício coletivo, pois os interesses individuais e econômicos prevalecem às necessidades básicas da população. Um dos planos finais do filme, chocante pela forma que se revela, me deixou anestesiado na cadeira, imóvel, sem palavras, e demorei a voltar ao mundo externo após o final da sessão. Quando finalmente retomei a consciência, a sala, já esvaziada, abrigava poucos incrédulos que como eu, acabaram de presenciar uma experiência que transcende o próprio cinema, que diz respeito à própria vida, que é arte por si só.

Cena do impactante "Homeland: Iraq Year Zero", do cineasta Abbas Fahdel.
Cena do impactante “Homeland: Iraq Year Zero”, do cineasta Abbas Fahdel.

Após quase 6 horas na sala de cinema, ainda encontrei forças para assistir a um dos filmes que encerrava a programação, “Jauja“, do já conceituado diretor argentino Lisandro Alonso. O filme, uma busca hermética em planos distintos – de forasteiros pelo Eldorado e de um pai pela sua filha adolescente que não suporta mais a vida de exploradora – encontra caminhos distintos, aliados a uma poderosa fotografia que remete à Pintura Renascentista e a figura icônica do ator Viggo Mortensen, imortalizado como Aragorn na trilogia “O Senhor dos Anéis”.
O filme, construído sobre silêncios e grandes planos gerais em um cenário épico, consegue nos enclausurar mesmo diante das infinitas paisagens que o compõem. A busca do pai, explorador, por sua filha, o fará encontrar aquilo que ele não sabia que procurava, o próprio Eldorado, aqui chamado de Jauja. Esse novo mundo só é possível em um nível pessoal, um encontro com o seu próprio interior, e no filme isso se desdobra através de planos de tirar o fôlego. O primeiro mostra a imersão de Mortensen em um mundo de sonhos, onde o céu estrelado dá lugar a um horizonte nublado e iluminado pela aurora, com a primeira utilização de trilha sonora não-diegética do filme. Posteriormente, uma cena dentro de uma caverna nos fará questionar a concepção de espaço-tempo definidas até então na película, e remete à premissa básica de filmes clássicos do Western ou mesmo dos Road Movies, onde o resultado quase nunca é mais importante do que a própria busca, onde as mudanças se dão sobretudo num plano interno dos personagens que encontram respostas para anseios que até então não nos foram exatamente apresentados, e o resultado não pode ser outro senão a de uma empatia e engrandecimento mútuo. O final do filme escancara a questão principal que envolve o espaço-tempo fílmico, onde nos dá a sensação de que esse cenário épico foi transposto para a atualidade, e a atriz que passa o filme foragida encontra-se em casa, já chamada por seu nome próprio e não pelo nome do seu personagem, levantando questões sobre o limite entre a arte e a vida real.
Jauja é um filme que dialoga muito mais com o nosso interior do que possivelmente apresenta na tela uma narrativa que se encerra em si mesma, é algo que merece novas revisões, em especial se o filme de fato entrar em cartaz nas próximas semanas, como boatos relataram durante os dias do festival.

Com o fim do filme, vinha junto um sentimento de nostalgia por saber que no dia seguinte a rotina seria longe das salas de exibição.
De toda forma, agora só nos resta aguardar pela edição de 2016.

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