VI Olhar de Cinema consolida o festival e apresenta a questões urgentes

Desde 2012, festival acumula exibições relevantes e reflexões atuais sobre o papel do cinema no contexto mundial.

por Vinicius Carvalho*

Protestos de rua, luta por moradia, ocupações, militarização. Movimento negro, feminismo, LGBTs. Demarcação de terras indígenas, migrantes e pessoas refugiadas, direitos trabalhistas. As questões presentes no VI Olhar de Cinema multiplicam-se. Assim como a quantidade de filmes desta edição: 125, exibidos durante os nove dias do evento.

Conforme a própria apresentação deste Olhar, a tarefa é “provocar e convidar seu público à reflexão acerca do papel do cinema como ferramenta de sensibilização e resistência coletiva”. Tão importante quanto os filmes, neste sentido, são os debates com as equipes realizadoras, os Seminários de Cinema, as oficinas gratuitas.

“Fico feliz de ver que a cidade já entendeu que essa é a proposta. Com os diálogos do último ano pra cá, as pessoas têm se programado de fora, vêm em caravanas”, ilustra Aly Muritiba, um dos fundadores do Olhar de Cinema. Importante lembrar o Seminário “Cultura na Era do Golpe”, que aconteceu ano passado. À época, a sede do Iphan estava ocupada, diante da extinção do Ministério da Cultura. Em meio a programação do Olhar, o encontro reuniu a equipe e o público do festival, o ex-ministro da cultura Juca Ferreira e representantes da ocupação, que hoje compõem o movimento Cultura Resiste.

De lá pra cá, o país passa por mudanças sociais e políticas, e o cinema trata disso. “O debate que os filmes têm trazido, e os encontros, têm uma relação muito íntima entre ética e estética”, explica Aly.

Embora passemos por problemas específicos no Brasil pós-golpe, os filmes que de alguma forma dão conta de questões políticas dialogam por todo o mundo. “Não é uma questão do Brasil, ondas reacionárias têm se manifestado de maneira horrorosa”, opina Aaron Cutler, da equipe de programação. “O cinema, que não é controlado por monstros, apresenta respostas a isso”, conclui.

Teste do pescoço – a questão do público

Domingo, 11 de junho, quinto dia do Festival Olhar de Cinema. E também um dia considerado nobre para a agenda de entretenimento, sobretudo quando faz sol na cidade. Aproveitamos a oportunidade para compreender como um evento que apresenta filmes autorais ou mesmo experimentais em sua programação consegue atrair o púbico.

Nas cinco salas do Cineplex, do shopping Novo Batel, três exibem os seguintes filmes: Z, a cidade perdida, Rei Arthur, a lenda da espada, Mulher Maravilha, Os Smurfs e a Vila Perdida e Animal Político. Nas outras duas, os filmes do Olhar de Cinema variam: o indiano Newton; o radical Alipato; o premiado El Mar, La Mar; clássicos e exibições especiais.

O que chamou atenção foi o número de espectadores em cada sala: enquanto a média de público dos filmes variava de oito a quinze pessoas, as sessões do festival contavam com mais de cem pessoas, em média. Ou seja, alguns filmes do Olhar fizeram dez vezes mais público do que o filme da sala ao lado.

Para Aaron Cutler, a pluralidade que o Olhar apresenta é uma das chaves para compreendê-lo: “A variedade estética, de culturas, países, épocas, estilos de vida… enfim, essa variedade é nossa tentativa de mostrar a variedade de questões de nosso mundo, sem comprometer a qualidade dos filmes”. Apenas para os longas-metragens das mostras, foram assistidos cerca de 700 obras, para a seleção final, de 40. Isso sem contar os casos em que filmes são barrados do festival por questões contratuais. “Por mais que a gente entrasse em contato com realizadores, são as distribuidoras que tomam essas decisões”, aponta Aaron.

Danielly Zuza, estudante de publicidade, foi uma das ganhadoras do sorteio que dá direito a ingressos diários. Ela também aposta nessa variedade como característica do Olhar de Cinema “O festival está maior, com filmes diferenciados, com tanta coisa diferente”. No entanto, poucas pessoas próximas a ela acompanharam o festival todo. “Não é comum, mesmo sendo da área, as pessoas pararem do começo ao fim, participarem dos debates. Mas achei que estaria mais vazio”, afirma.

Equipe de apoio

Todo ano, o Olhar conta com uma equipe de pessoas voluntárias. Atuando na projeção, nas salas, na recepção, na mediação com cineastas e imprensa, a equipe faz com que o evento ocorra da melhor maneira possível.

Com o avanço das edições e o próprio crescimento do festival, foi criada neste ano uma coordenação para orientar esta equipe. “A gente batia muito a cabeça, com tanta gente interessada, mas sem uma boa orientação. Nesta edição, com a coordenação, é a primeira que consigo ver um filme inteiro!”, brinca Aly Muritiba. “Demos um salto de qualidade incrível”.

A procura pela experiência é grande: para as 38 pessoas selecionadas, foram mais de 450 inscrições. A equipe é variada, formada por estudantes de cinema, pessoas interessadas e demais atividades culturais.

“Façam filmes!”

A Família, de Gustavo Rondón Córdova, não é uma escolha do acaso para abrir o VI Olhar. Assim como o primeiro longa de Juliana Antunes, Baronesa, que encerra o festival mas soa como um convite para prosseguirmos. “Eu ainda não estou recuperada desse golpe ridículo”, explica a diretora. “Mas estes filmes ainda não estão prontos. Baronesa é pré-golpe, é pré-crise brasileira, embora tudo já esteja ali, desenhado”.

Da mesma maneira, outro destaque foi a exibição de Meu Corpo é Político, de Alice Riff. Com sessões lotadas, o filme contou com grande participação do público, inclusive nos debates. Sobre a questão de pessoas trans, sobretudo que vivem na periferia, a equipe do longa vê uma mudança positiva: “Acompanhamos pessoas públicas, e cada vez se fala mais disso, esses espaços [de fala] estão surgindo, e crescendo”, afirma Alice.

E quando as pessoas afirmam que passaram o filme todo esperando uma cena de violência ou preconceito, a equipe responde: “Deixamos isso pro Datena. Nosso filme é político, procuramos as narrativas que nos interessam”. Talvez pelo fato de escolher o que filmar e tomar decisões com as personagens que protagonizam o longa. De qualquer forma, o filme é um exemplo de quando o cinema consegue ser um contraponto ao sensacionalismo ou enfoque equivocado da mídia convencional.

Apesar das inúmeras dificuldades de realizar um filme de forma independente, Juliana comprova, com Baronesa, que isso é possível. “Nos exercícios de faculdade, os caras não topavam, e depois não emprestavam equipamentos. Quem topou foram amigas próximas, uma ex-namorada, tudo sem grana, orçamento curtíssimo, a pé!”, enumera Juliana. Na hora da filmagem, não é diferente. Segundo Juliana, para filmar Baronesa, a equipe dependia sempre de uma “autorização masculina”, seja do pai, do marido, do irmão de alguma das personagens. “Como é difícil filmar mulher na periferia!”, destaca. “Era o exponencial da desgraça, e era muito importante pra mim captar isso, esse nicho de violência desesperançoso”, afirma.

O filme é fruto de quatro anos de pesquisa, para onze diárias de produção, e mais um ano e meio de montagem. “Baronesa quebra essa coisa de currículo, de carreira… É um filme feito a partir do desejo”, afirma Juliana. Impossível separar sua obra e seu discurso da questão de gênero na produção cinematográfica. “Essa discussão é constante entre nós realizadoras, por que tem tanto disso?”, questiona. “O maior problema é a paridade de gênero. Além da realização, a maioria nos júris e seleção de festivais são homens. Sobretudo nas bancas de editais, a maioria é homem. A gente fica com o que sobra. E então eu me pergunto, como mudar isso? Façam filmes!”, incentiva Juliana.

Vinicius Carvalho é formado em comunicação social e em cinema, milita no campo da cultura.

 

Edição Nº. 001 – 22.03.2017

EDITORIAL:

Nesta primeira edição temos as principais notícias e artigos dos principais meios de comunicação do Brasil, além dos sites de cinema. O destaque são as imagens do filme Tungstênio (fotograma em destaque), as alterações na Lei Rouanet e a premiação de Divinas Divas, de Leandra Leal, no SXSW.

Por falar em Ministério da Cultura, a sua ausência foi sentida no encerramento do Rio Content Marketing no último dia 10 de março. Não bastasse a ausência do chefe da pasta de cultura, também faltaram ao encerramento a Secretária Municipal de Cultura do Rio de Janeiro, Nilcemar Nogueira, e o Prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella. O encerramento ficou para o psicodélico presidente da Rio Filme, Marco Aurélio Marcondes, que anunciou um decreto de simplificação das ações da Rio Film Commission, o Rio Mais Fácil Audiovisual. Ou seja…  não se tinha o que anunciar e só anunciou algo por conta do lançamento do aplicativo da São Paulo Film Commission. No âmbito federal era até de entendimento político as ausências, já que o “perigo” das vaias era eminente. Mas do âmbito municipal pegou mal, umas vez que a prefeitura carioca é a principal patrocinadora do evento. E, por fim, a ausência da Secretaria Estadual de Cultura do Rio de Janeiro nem foi sentida, pois pasta já está apagada do meio cultural há bastante tempo.

Ainda sobre o Rio Content Marketing, no dia 9 de março, a coordenadora do AFROFLIXYasmin Thayná. fez uma saudável provocação ao perguntar quem poderia listar 10 realizadores negros no cinema brasileiro, durante uma mesa sobre plataformas digitais. Apenas duas pessoas levantaram a mão, que eu me lembre o Clementino Nascimento e este editor que a vós escreve.

Segue a minha lista de realizadores negros brasileiros: 

  1. Adélia Sampaio – realizadora negra, Amor Maldito é o seu filme redescoberto
  2. Edileuza Penha de Souza – pesquisadora e realizadora negra, Mulheres de Barro é a sua tese fílmica.
  3. Sabrina Fidalgo – realizadora negra, Rainha é o filme mais recente
  4. Jaqueline M. Souza – realizadora negra e editora do portal Tertúlia Narrativa
  5. André Novais – realizador negro e sócio da Filmes de Plástico
  6. Luciano Vidigal – realizador negro, último filme foi Lá do Alto
  7. Luis Lomenha – realizador negro e coordenador do Cinema nosso
  8. Joel Zito Araújo – pesquisador e realizador negro, dirigiu A Negação do Brasil – o Negro nas Telenovelas Brasileiras
  9. Odilon Lopes – realizador negro, dirigiu Um é Pouco, Dois é Bom
  10. Zózimo Bulbul – realizador negro, fundador do Afro Carioca de Cinema

Devo admitir que de cabeça me veio facilmente o nome de 5 realizadores, depois uma confusão entre quem dirigiu e quem atuava. A invisibilidade e/ou mistificação do negro no cinema brasileiro e na cultura em geral é uma construção sólida. No caso de Odilon Lopes, que veio inicialmente como um cinegrafista gaúcho em uma pesquisa sobre o Movimento pela Legalidade, até ser elencado nesta lista.

PANORAMA:

ARTIGOS DE OPINIÃO:

‘Os maiores sucessos do cinema brasileiro nasceram da colaboração estreita entre distribuidores e produtores’

‘O cinema é uma economia criativa, mais complexa que uma indústria de resultados imediatos’

Nunca sei se a Abraccine é uma associação de críticos ou um CTG, no modelo gaúcho, em defesa da tradição.

ANDREA TONACCI (1944 – 2016):

Expediente: Frederico Neto – editor. Este boletim é mantido pela Sangue TV e não tem caráter comercial. Periodicidade: toda primeira e terceira quarta-feira do mês. Envie críticas, correções, notícias ou textos para boletim@produtor.org. Assine e colabore na vakinha.

Ruy Braga: Hegemonia em coxinhalândia

Por Ruy Braga.

A última eleição na cidade de São Paulo serviu para alinhar a conjuntura política municipal ao momento de crise e de radicalização do neoliberalismo em escala internacional. Logo após a cristalização de um golpe parlamentar contra um governo democraticamente eleito, a população paulistana, considerando a notável vitória conquistada no primeiro turno por João Dória contra o ex-prefeito petista, Fernando Haddad, pareceu legitimar a versão mais crua e atualizada do neoliberalismo.

Não podemos negar que o atual prefeito está empenhado em cumprir suas promessas de campanha: acabou de anunciar em Dubai o “maior plano de privatização da história da cidade”. Entre outras medidas, o poder municipal promete transferir para o setor privado até mesmo os dados cadastrais dos usuários do sistema de transporte público da cidade. Mesmo diante da flagrante ilegalidade da proposta, as chances dessa medida prosperar são enormes. A aprovação popular do prefeito tucano é recorde e os adversários da onda privatizante aparentemente encontram-se imobilizados.

Como interpretar essa anomalia? Como explicar que uma agenda política focada na espoliação daquilo que é público receba aprovação popular? Aliás, note-se que as privatizações retornaram com força no país todo devido à crise de endividamento dos governos estaduais com a União. Para cada rodada de renegociação dos Estados com o Ministério da Fazenda, mais privatizações são exigidas e anunciadas. Uma avassaladora onda de mercantilização tem avançado, superando todos os diques e as barreiras de contenção que encontrou pela frente. Afinal, qual o segredo da hegemonia neoliberal?

Logo após o neoliberalismo aportar no país trazido pelo célere governo de Fernando Collor de Mello, publiquei um livro intitulado A restauração do capital (Xamã, 1994) onde argumentava que a globalização neoliberal exigia que interpretássemos as transformações do Estado e da forças produtivas de maneira combinada. Para tanto, sugeri que o conceito gramsciano de revolução passiva poderia ser muito produtivo. Em suma, o neoliberalismo seria uma revolução passiva, ao mesmo tempo econômica e política, capaz de impulsionar uma nova hegemonia.

A hipótese era um pouco exótica e não agradou a quase ninguém. Lembro-me que o grande intérprete brasileiro de Gramsci, Carlos Nelson Coutinho, nunca topou a conjectura, argumentando que a política neoliberal não fazia concessões às classes subalternas e, consequentemente, não poderia ser interpretada na mesma chave teórica da formação do Estado italiano, do fascismo e do fordismo. Não vou detalhar a oposição de Carlito, mas a realidade é que, no Brasil, o Plano Real controlou a inflação, derrubou o preço dos alimentos e, de quebra, produziu uma rápida mudança da norma social de consumo impulsionada pela chegada dos produtos importados.

Após cinco anos de vigência do real, quando o desemprego cobrou o preço da combinação entre câmbio valorizado e sucessivos déficits na balança internacional, gerando um aumento crescente do endividamento externo, as empresas no país já estavam em um ritmo acelerado de reestrutura produtiva nos moldes pós-fordistas e financeirizados. Subitamente, o aumento da competição no mercado de trabalho somado às novas ideologias gerenciais participativas desembocaram na internalização do modelo da empresa pelos próprios trabalhadores. No mundo do trabalho, foi a época em que ninguém mais falava em “operário”, mas em “operador”.

Por outro lado, as forças sociais politicamente organizadas do trabalho tendo o PT e a CUT à frente também passaram por um profundo ajuste ideológico. Acompanhando a progressiva fusão do petismo ao aparelho de Estado por meio de vitórias eleitorais, emergiu a noção de que seria possível mitigar a pobreza por meio de políticas públicas focalizadas ao estilo das propostas do Banco Mundial. Simplificando bastante, o problema da miséria e da desigualdade num país com um passado escravocrata como o Brasil reduziu-se a uma questão de eficiência administrativa. Ou seja, o modelo empresarial foi ganhando os corações e as mentes da própria esquerda cada dia mais refugiada no interior do aparelho Estado.

Dilma Rousseff e Fernando Haddad são exemplos ideal-típicos desse processo de despolitização do social em benefício de uma abordagem gerencial das contradições sociais. Em ambos os casos, eles foram apresentados à população como ótimos “gestores”, não como lideranças de um projeto eminentemente político. A luta política das forças sociais claramente identificadas com a classe trabalhadora foi deslocada para um plano secundário, esvaziando-se em benefício de uma visão mais tecnocrática do desenvolvimento e da justiça social.

Em acréscimo, no caso específico de São Paulo, não devemos nos esquecer que se trata de uma cidade com muitos milhares de pequenos proprietários cujo trânsito da informalidade para a formalidade e vice-versa é regulado pelo nível do desemprego. Em momentos de elevação da desocupação como este que vivemos, com 13 milhões de desempregados no país, aumentam tanto a informalidade quanto a concorrência entre os desempregados e os subempregados. Com isso, as chances de que um grande número de pessoas adira à ideologia do empreendedorismo, fortalecendo a hegemonia neoliberal no seio das classes subalternas, muitas vezes, mediada por denominações neopentecostais, é significativamente maior. Dispensável dizer que isso tende a aprofundar as tendências de despolitização do social e de regressão das formas de mobilização classista.

Em suma, ao terceirizarmos a política social para ONGs pilotadas por pastores evangélicos, ao escondermos os signos do socialismo, ao desvalorizarmos a cultura da classe trabalhadora, a esquerda brasileira acabou cedendo o terreno da luta de classes para o adversário. Sabemos que operário não é operador, assim como trabalhador não é empreendedor. No entanto, a esquerda administrativa parece empenhada em promover exatamente as figuras do empreendedor e do operador.

Pierre Dardot e Christian Laval observam que o neoliberalismo provou sua força política ao fazer com que mesmo seus antagonistas históricos, isto é, os partidos reformistas europeus, aderissem à sua linguagem e aos seus valores, reproduzindo celebratoriamente tanto seus modelos empresariais quanto sua dinâmica concorrencial. O mesmo poderia ser dito a respeito dos governos petistas. Garantir superávits primários, manter a taxa de juros elevada e distribuir renda por meio de políticas focalizadas administradas por organizações sociais são medidas tão neoliberais quanto baixar tarifas alfandegárias para conter a inflação e privatizar o setor de telecomunicações a fim de, supostamente, ampliar a oferta dos serviços para a população. As eras Lula e FHC têm mais em comum do que seus protagonistas gostariam de admitir.

Ocorre que o período marcado pela crise da globalização difere da onda expansiva anterior. Haddad, por exemplo, foi um prefeito desenhado para governar o neoliberalismo no auge do lulismo. Assim como aconteceu com Dilma Rousseff, a imagem do ótimo gestor simplesmente não sobreviveu à recessão econômica. Ainda que, de fato, ele tenha sido um administrador muito mais eficiente do que seus antecessores, como ele poderia sobreviver à atual turbulência econômica e política?

O curioso é que o candidato lulista foi abatido por um tucano meio outsider apresentado à população paulistana como um “João Trabalhador”. Não há vácuo na política e ninguém deixa de ser trabalhador por ser chamado de operador na empresa ou de empreendedor pelo governo. O terreno da luta de classes foi ocupado por um aventureiro especializado em organizar convescotes para os milionários. Ao mesmo tempo em que lidera um programa de privatizações totalmente desavergonhado, ele veste-se todos os dias de gari, jardineiro, pintor de muros, etc.

Trata-se de alguém que explora com perspicácia o espaço vazio da desmobilização política legado pelo lulismo. Ao se fantasiar de trabalhador subalterno, mistura kafkianamente o rosto que os setores médios tradicionais querem ver na prefeitura, com a aspiração popular de se destacar por meio do trabalho árduo. Operário e operador, trabalhador e empreendedor: está tudo mais ou menos misturado no corpo desse empresário-político que supostamente deu duro no mercado antes de se tornar o zelador da cidade de São Paulo.

Apesar disso, é claro que a popularidade do governo municipal tende a cair. A crise econômica é profunda e irá nos assombrar por muito tempo. E precisamos considerar que o desenvolvimento da agenda neoliberal leva fatalmente à mercantilização de bens e serviços, o que tende a encarecer o custo de vida e aprofundar o endividamento das famílias trabalhadoras. Ou seja, mesmo colhendo os frutos semeados pela derrota do lulismo, o prefeito tucano descobrirá, cedo ou tarde, que não é nada fácil reproduzir a hegemonia neoliberal, mesmo que seja em Coxinhalândia.

Fonte: https://blogdaboitempo.com.br/2017/03/06/hegemonia-em-coxinhalandia

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Ruy Braga, professor do Departamento de Sociologia da USP e ex-diretor do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania (Cenedic) da USP, é autor, entre outros livros, de Por uma sociologia pública (Alameda, 2009), em coautoria com Michael Burawoy, e A nostalgia do fordismo: modernização e crise na teoria da sociedade salarial (Xama, 2003). Na Boitempo, coorganizou as coletâneas de ensaios Infoproletários – Degradação real do trabalho virtual (com Ricardo Antunes, 2009) e Hegemonia às avessas (com Francisco de Oliveira e Cibele Rizek, 2010), sobre a hegemonia lulista, tema abordado em seu mais novo livro, A política do precariado: do populismo à hegemonia lulista. É também um dos autores dos livros de intervenção Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil (Boitempo, Carta Maior, 2013) e Por que gritamos golpe? Para entender o impeachment e a crise política no Brasil (Boitempo, 2016). A Boitempo prepara para 2017 o lançamento de mais novo livro A rebeldia do precariadoColabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às segundas.