Intervenção de Luciana Baseggio na Mesa “Mulheres na Cinematografia (12 de maio de 2017)

O DAFB lamenta que ontem na mesa QUANDO O VENTO FAZ A CURVA: MULHERES NA CINEMATOGRAFIA, durante a Semana ABC 2017, intervenções que não contribuíram para o debate que estava sendo feito, tomaram o tempo de exposição da mesa.

Por isso, publicamos na íntegra, o texto preparado pela nossa integrante Luciana Baseggio e que não foi dito em sua totalidade:

O que eu quero mostrar pra vocês é o ponto de vista de uma mulher que há 10 anos trabalha como assistente de câmera. Eu quero falar do que aconteceu comigo, do que eu vejo acontecer ao meu redor e com outras mulheres que trabalham na área. E também quero falar sobre o que nós mulheres podemos fazer pra mudar o futuro das diretoras de fotografia no Brasil.

Em junho de 2016 a produtora O2 Filmes convidou um grupo de diretores de fotografia a se apresentar no site da produtora como a nova geração de fotógrafos de cinema no Brasil. Essa lista era composta exclusivamente por homens. Quando questionada sobre isso, a O2 se manifestou nas redes sociais dizendo que “são poucas as jovens mulheres atuantes nessa área”.

Esse acontecimento abriu os nossos olhos, de uma vez por todas, nos fez perceber que nós tínhamos que agir. Tínhamos que tomar uma atitude pra mostrar pra pessoas que acreditam e disseminam esse tipo de afirmação que elas estão erradas. Nós sentimos que a situação atual na qual nos encontramos só pode mudar através do nosso esforço e das nossas atitudes. Essa mudança nunca vai vir de outro jeito.

Porque é justamente por esse tipo de atitude, pela negação da existência de mulheres que trabalham na área, pelo preconceito que ainda experimentamos por sermos do sexo feminino que continuamos sendo uma porcentagem inferior nos dados……… Porque sim! Existem diretoras de fotografia no mercado, então o que a gente se pergunta é: porque o mercado continua querendo negar isso?

Todos tem que começar a se perguntar porque por exemplo no prêmio ABC, a avassaladora maioria de concorrentes é do sexo masculino? No caso deste ano, por exemplo temos apenas 4 mulheres de 32 concorrentes em prêmios de direção de fotografia. Porque apenas 8% das produções audiovisuais em 2016 foram fotografados por mulheres? E desses 8%, 0 são mulheres negras.

A direção de fotografia é uma das funções que menos emprega mulheres dentro do setor audiovisual no mundo e no Brasil.

6% dos longa-metragens de ficção brasileiros foram fotografados por mulheres em 2016.

Dos 177 diretores de fotografia afiliados à ABC, apenas 9 são mulheres. Somente 4 diretoras de fotografia participaram de mesas na Semana ABC por exemplo, de todas as mesas feitas até hoje, e contando com a mesa de hoje.

Essa historia não é igual pra todas, mas pra mim, desde a faculdade eu fui lembrada de que: eu sou uma mulher tentando ser fotógrafa. Tive que ouvir de um professor da Universidade que a direção de fotografia não era para mulheres.

Quando entramos no mercado de trabalho nós temos que estar dispostas a entrar num meio que nem sempre somos bem vindas, e que sempre somos cercada por homens. Onde lidamos com assédio diário, ao sermos chamadas de “gata”, “princesa”, ao ouvirmos frases do tipo “deixa que eu carrego isso pra voce”, “isso é trabalho pra homem” e “isso deve estar muito pesado pra você”, etc.

Convivemos com muitos homens que acreditam ter um conhecimento técnico superior ao nosso simplesmente por causa do nosso gênero e ainda temos que nos esforçar em dobro pra termos o mesmo reconhecimento, pra provar pros outros e pra nós mesmas que conseguimos fazer o trabalho.

Além disso, muitas vezes os homens ainda querem ditar o que vestimos, ou estamos com bermudas muito curtas ou calças muito justas, justificando que assim chamamos muita atenção e isso não pode acontecer num set de filmagem. Ou seja, além de nos tratarem como objetos, ditam o que podemos ou não vestir e ainda jogam para nós a culpa de sermos assediadas no trabalho.

Muitas vezes em resposta a isso muitas mulheres acabam mudando seu comportamento para se proteger deste tipo de agressão e também como maneira de ser aceita nesse meio, pois acabam constatando que é muito mais fácil fingir não ouvir uma piada machista ou mesmo fingir não se incomodar com isso e seguir em frente do que bater de frente com esse machismo que encontramos diariamente nos sets de filmagens.

Esse assédio acontece em todas as áreas do audiovisual, e cada vez mais mulheres estão tomando coragem pra denunciar este tipo de comportamento. Tivemos nesses últimos dois anos vários exemplos de cartas de denúncia a assédios e abusos ocorrentes em set de filmagem.

Quando passamos por tudo isso e resolvemos virar diretoras de fotografia, mesmo com todos os anos de assistência de câmera encontramos dificuldade em conseguir trabalho, somos ignoradas pelas produtoras que trabalhamos a vida inteira e quase os únicos nichos que abrem pra nós são programas de TV e com muita sorte filmes independentes e documentários. E tudo isso numa proporção completamente desigual. Os homens ainda fotografam 90% dos longa-metragens, 90% dos programas de TV de ficção, e enfim… A lista continua praticamente a mesma em todas os tipo de produções audiovisuais.

Um estudo chamado “The Celluloid Ceilling” feito pela universidade de San Diego nos Estados Unidos analisou os 250 filmes de maior bilheteria do ano de 2016 no país e, sem nenhuma surpresa, as mulheres fotografaram 5% dos mesmos. O mais triste é pensar que se esta pesquisa fosse feita no Brasil esses dados seriam, provavelmente, ainda piores. Aqui as mulheres não são chamadas para fotografar filmes de grandes orçamento, mesmo as mulheres estando na produção executiva de mais de 46% destes filmes.

Até a nossa evolução pra direção de fotografia acontece mais tarde. Quando começamos a fortalecer a carreira de fotógrafa vemos que todos os colegas de faculdade do sexo masculino e os homens que começaram a trabalhar no mercado na mesma época que nós já se tornaram diretores do fotografia há muito mais tempo e já estão tendo reconhecimento na área.

O mercado precisa se lembrar que a única diferença entre homens e mulheres na direção de fotografia é a oportunidade. Só a OPORTUNIDADE traz experiência. Só ela vai fazer com que esse cenário mude.

A criação do DAFB partiu dessa ideia. Queremos mudar a opinião do mercado, mudar a opinião das produtoras. Precisamos mudar. Queremos proporcionar questionamentos para aqueles que nunca se questionaram sobre isso. Somos um coletivo de diretoras de fotografia com o intuito de organizar as profissionais do mercado e fomentar a participação de mais mulheres nesse segmento.

O DAFB surgiu quando nós percebemos que a única maneira de mudar essa consciência coletiva de que não existem diretoras de fotografia do mercado ou que mulheres não são aptas a serem diretoras de fotografia, é se organizando. A mudança só pode partir de nós mesmas, de nós, mulheres.

Estamos na 16a semana ABC e é a primeira vez que estamos tendo essa conversa aqui dentro. E essa conversa não vai acabar, ela continua.

Vamos lançar uma pesquisa pra entender quem são as mulheres diretoras de fotografia, em quais as condições elas trabalham, em quais produtoras elas trabalham e em quê tipos de produções.

Além disso no dia primeiro de junho será lançado um banco de dados colaborativo com todas as mulheres que já atuaram em equipes de fotografia na historia do cinema brasileiro. Isso será feito através do site fotografasdecinema.com.br a partir da pesquisa realizada pela professora da UFF Nina Tedesco com a ajuda de alunas bolsistas.

Queremos aprofundar a questão, entender qual o lugar da mulher na direção de fotografia atualmente no cinema brasileiro. Também já estamos nos organizando, através de parcerias, pra montar workshops voltados às mulheres, pra trazer cada vez mais elas pra equipes de direção de fotografia, pra mostrar que esse caminho existe. A representatividade é muito importante, quanto mais mulheres entrarem no mercado mais mulheres vão se tornar diretora de fotografia.

O site do DAFB serve como um banco de dados de mulheres que trabalham em equipes de direção de fotografia.

Atualmente contamos com 62 afiliadas dividas entre as cidades: Belo Horizonte, Brasília, Cachoeira na Bahia, Florianópolis, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador, São Carlos e São Paulo.

Fazem parte do Coletivo todas as mulheres que trabalham na área da Direção de Fotografia.

Eu gostaria de aproveitar pra convidar todas as mulheres que estão aqui e que trabalham dentro de uma equipe de direção de fotografia a participarem do DAFB. É só nos procurar no facebook, no www.dafb.com.br ou mandar um email pro coletivodafb@gmail.com

E também nós do DAFB estaremos disponíveis pra conversar depois dessa mesa, quem quiser mais alguma informação é conversar com a gente.

Obrigada

Luciana Baseggio

Fonte: https://www.facebook.com/diretorasdefotografiadobrasil/posts/1313520882030546